Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 10)
[Laços de sangue na literatura]
Laços de sangue não garantem parentesco espiritual, é sabido; irmãos podem ser e frequentemente são tão diferentes entre si quanto são de completos estranhos, ainda que a ascendência comum e a convivência na infância e juventude determinem relações de grande afeto.
Por outro lado, é fascinante que se possa conhecer na literatura criaturas tão parecidas com a gente mesma. Minha primeira experiência desse tipo deu-se quando conheci Paulo Honório, o coronel assassino, protagonista e narrador do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Identifiquei-me de pronto com essa criatura e desenvolvi por ela o que por mim mesma era uma mistura de repulsa e forte autocomiseração. Mais tarde, quando li Infância e Memórias do Cárcere, textos autobiográficos do mesmo autor, concluí que eu e Paulo Honório tínhamos um terceiro irmão bastante afinado: o criador mesmo, Graciliano.
Mas das minhas experiências de conhecer irmãos pela literatura, nada se comparou até agora à que tive quando li, muito recentemente, As pequenas virtudes da escritora italiana Natália Ginzburg (1916-1991). Deu-me vontade de sair mostrando às pessoas na rua: "olha só, podia ser minha avó, viveu e morreu do outro lado do mundo, mas é minha irmã, verdadeiramente minha irmã, e de algum ponto do universo segue falando comigo".
(Adaptado de: LOPES, Ayde Veiga. Disponível em: https://ninhodealveloas.blogspot.com/search/label/cidadela)
É adequado o emprego de ambos os elementos sublinhados na frase:
- AHá personagens literárias de cujo fascínio nos prendem mais do que os laços que mantemos aos nossos familiares.
- BGraciliano Ramos vale-se de narradores de que o caráter corrompido não impede que os dediquemos alguma simpatia.
- COs textos autobiográficos onde sua construção esse autor tanto se esmerou renderam-lhe todo o reconhecimento do qual fez jus.
- DA escritora Natália Ginzburg escreveu um livro cuja a força impressionou demais a uma cronista que a opinião dela manifestou num texto.
- EAs amizades a que nos dedicamos com intensidade podem ser superiores aos afetos provenientes dos laços de sangue. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O pronome relativo é uma palavra que retoma um termo anterior (antecedente) e introduz uma oração subordinada adjetiva, evitando repetições. A escolha do pronome e da preposição que o acompanha depende da regência (exigência de preposição) do verbo ou nome na oração subordinada.
(A) Incorreta: "de cujo fascínio" está inadequado. "Cujo" já indica posse ("fascínio das personagens"), não sendo comum a preposição "de" antes dele, a menos que a regência do verbo principal exija. O correto seria "cujo fascínio nos prende". Além disso, "mantemos aos nossos familiares" está errado; o correto seria "mantemos com nossos familiares".
(B) Incorreta: "de que o caráter corrompido" está correto, pois "caráter" é dos narradores (o "de que" equivale a "cujo"). No entanto, "que os dediquemos alguma simpatia" está errado. O verbo "dedicar" (algo a alguém) exige objeto indireto para a pessoa. "Os" é pronome oblíquo de objeto direto. O correto seria "dediquemos lhes alguma simpatia" ou "dediquemos a eles alguma simpatia".
(C) Incorreta: "onde sua construção" está errado, pois "onde" só se refere a lugar físico. Deveria ser "em cuja construção" ou "em que sua construção". "do qual fez jus" também está errado, pois "fazer jus" rege a preposição "a" ("fazer jus a algo"). O correto seria "ao qual fez jus".
(D) Incorreta: "cuja a força" está errado. O pronome "cujo" (e suas variações) já tem valor possessivo e não admite artigo depois dele. O correto seria "cuja força". "que a opinião dela manifestou" está sintaticamente confuso e incorreto; a frase precisaria ser reestruturada, talvez para "a cronista cuja opinião ela manifestou" ou "a cronista que manifestou a opinião dela".
(E) Correta: "a que nos dedicamos" está correto. O verbo "dedicar-se" é pronominal e rege a preposição "a" ("dedicar-se a algo/alguém"). O pronome "que" retoma "amizades", e a preposição "a" é exigida pela regência do verbo. "dos laços de sangue" está correto. O adjetivo "provenientes" rege a preposição "de" ("provenientes de algo"), e "dos" é a contração de "de" + "os".
Fonte: FCC TRT7 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Arquitetura (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.