Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 9)
[Laços de sangue na literatura]
Laços de sangue não garantem parentesco espiritual, é sabido; irmãos podem ser e frequentemente são tão diferentes entre si quanto são de completos estranhos, ainda que a ascendência comum e a convivência na infância e juventude determinem relações de grande afeto.
Por outro lado, é fascinante que se possa conhecer na literatura criaturas tão parecidas com a gente mesma. Minha primeira experiência desse tipo deu-se quando conheci Paulo Honório, o coronel assassino, protagonista e narrador do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Identifiquei-me de pronto com essa criatura e desenvolvi por ela o que por mim mesma era uma mistura de repulsa e forte autocomiseração. Mais tarde, quando li Infância e Memórias do Cárcere, textos autobiográficos do mesmo autor, concluí que eu e Paulo Honório tínhamos um terceiro irmão bastante afinado: o criador mesmo, Graciliano.
Mas das minhas experiências de conhecer irmãos pela literatura, nada se comparou até agora à que tive quando li, muito recentemente, As pequenas virtudes da escritora italiana Natália Ginzburg (1916-1991). Deu-me vontade de sair mostrando às pessoas na rua: "olha só, podia ser minha avó, viveu e morreu do outro lado do mundo, mas é minha irmã, verdadeiramente minha irmã, e de algum ponto do universo segue falando comigo".
(Adaptado de: LOPES, Ayde Veiga. Disponível em: https://ninhodealveloas.blogspot.com/search/label/cidadela)
Ao se referir a Paulo Honório, no 2º parágrafo, a autora afirma que mantém com esse protagonista e narrador de São Bernardo uma relação de
- Adifícil empatia, justamente por conta das dessemelhanças de caráter que ela reconhece haver entre ela e Paulo Honório.
- Bobservação crítica, uma vez que entende que um personagem de ficção se produz segundo caprichos aleatórios de um escritor.
- Cpiedosa compreensão, pelo fato de Paulo Honório sofrer na pele as desventuras de um espírito marcado pela malignidade.
- Didentificação muito marcante, pois ela reconhece dentro de si mesma sentimentos contraditórios e análogos aos do protagonista. (alternativa correta)
- Edistanciamento sofrido, uma vez que sua simpatia pelo personagem sofre a censura dos juízos morais que ela cultiva.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Interpretar um texto significa entender o que o autor expressa, incluindo seus sentimentos e a forma como ele se relaciona com os elementos apresentados, como personagens. É preciso buscar no texto as palavras e frases que revelam essas intenções.
(A) Incorreta: A autora afirma "Identifiquei-me de pronto", o que contradiz a ideia de "difícil empatia" ou dessemelhanças.
(B) Incorreta: O texto descreve uma conexão pessoal profunda, não uma observação distanciada ou a percepção de que o personagem é fruto de "caprichos aleatórios".
(C) Incorreta: Embora haja "autocomiseração", ela é acompanhada de "repulsa", e a autora se identifica com esses sentimentos em si mesma, não apenas com a dor do personagem.
(D) Correta: A frase "Identifiquei-me de pronto com essa criatura e desenvolvi por ela o que por mim mesma era uma mistura de repulsa e forte autocomiseração" demonstra uma identificação imediata e a presença de sentimentos complexos (repulsa e autocomiseração) que a autora reconhece tanto no personagem quanto em si mesma.
(E) Incorreta: A expressão "Identifiquei-me de pronto" nega qualquer "distanciamento sofrido". A relação é de proximidade e reconhecimento de sentimentos internos, não de censura moral que gera afastamento. A armadilha aqui é a palavra "repulsa", que pode levar a pensar em juízo moral e distanciamento, mas o texto deixa claro que essa repulsa é parte de uma mistura de sentimentos que a autora reconhece em si mesma, e não um fator de afastamento.
Fonte: FCC TRT7 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Arquitetura (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.