Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT2 2025 (nº 4)
Compreensão do tempo histórico
Quando cada instante do tempo que vivemos está vazio, ele não pode ser estimulado por uma expectativa promissora, por uma esperança. No entanto, se ele está sobrecarregado a ponto de explodir, fervilhando com o peso de todos os momentos anteriores, ele não dispõe de capacidade de provisão necessária para se abrir positivamente. Existe uma tensão entre a antecipação e a realização, entre o vazio do momento atual e a expectativa de que a qualquer momento ele será preenchido satisfatoriamente.
Para quem só se alimenta da ideia do progresso, todos os momentos são desvalorizados pelo fato de que cada um deles não passa de um degrau para o seguinte, o presente sendo uma prancha que desembarca no futuro. Cada átimo de tempo é depreciado em relação a uma infinidade de átimos que ainda virão, numa espécie de visão do progresso eterno.
A perspectiva de eternidade progressiva priva a história humana de seu caráter dramático, nela não se consegue perceber que não são os sonhos de que seus netos sejam livres que estimulam os homens e as mulheres a se revoltar, mas as lembranças de seus antepassados oprimidos. É o passado que nos fornece os recursos para ter esperança, e não simplesmente a possibilidade teórica de um futuro um pouco mais gratificante. É assim que o filósofo alemão Ernst Bloch pode falar do "futuro ainda não cumprido no passado".
Devemos nos esforçar, portanto, para manter o passado inacabado, recusando-nos a aceitar sua aparência de encerramento como palavra final, abrindo-o novamente ao reescrever sua fatalidade aparente sob o signo da liberdade crítica.
(Adaptado de EAGLETON, Terry. Esperança sem otimismo. Trad. Fernando Santos, São Paulo: Editora Unesp, 2023, p. 49-50)
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
- ANão deveriam haver tensões entre a antecipação e a realização dos fatos desejáveis.
- BAinda quando se apresenta situações passadas como mortas, não se deve subestimá-las.
- CDeve-se às lembranças vivas do passado o reconhecimento do que nos legaram. (alternativa correta)
- DAo se privarem dos valores do passado, a geração dos mais jovens fica mais pobre.
- EEstimam-se que os eventos trágicos tornam-se farsas quando se repetem.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A concordância verbal é a regra que faz o verbo combinar com o sujeito da frase em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele, nós, vós, eles). O verbo deve sempre "concordar" com seu sujeito.
- (A) Incorreta: O verbo "haver" no sentido de "existir" é impessoal, ou seja, não tem sujeito e permanece sempre no singular. Quando ele é auxiliar de um verbo impessoal, o verbo auxiliar também fica no singular. O correto seria "Não deveria haver tensões...".
- (B) Incorreta: O "se" é uma partícula apassivadora aqui, e o verbo deve concordar com o sujeito paciente. "Situações passadas" é o sujeito paciente e está no plural, portanto o verbo "apresentar" deveria estar no plural: "se apresentam situações passadas".
- (C) Correta: Nesta frase, o sujeito é "o reconhecimento do que nos legaram" (singular). O verbo "dever-se a" (no sentido de "ser atribuído a", "ser devido a") concorda com esse sujeito. Como o sujeito é singular, o verbo "deve-se" também está no singular, o que está correto.
- (D) Incorreta: O sujeito implícito do verbo no infinitivo "privarem" é "a geração dos mais jovens", que é singular. Portanto, o infinitivo deveria estar no singular: "Ao se privar dos valores do passado...".
- (E) Incorreta: A armadilha aqui é o uso do "se". Quando o "se" acompanha um verbo que tem como objeto direto uma oração subordinada (introduzida por "que", como em "que os eventos trágicos tornam-se farsas"), ele funciona como índice de indeterminação do sujeito. Nesses casos, o verbo deve permanecer na 3ª pessoa do singular. O correto seria "Estima-se que os eventos trágicos...".
Fonte: FCC TRT2 2025 Conhecimentos Comuns (Área Administrativa TRT2 2025) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.