Questão nº 58
Questão de História · FCC TRT2 2018 (nº 58)
Apesar do pioneirismo de Alcântara Machado na utilização de inventários como fonte para a história (Vida e morte do bandeirante foi publicado em 1929), é nas décadas de 1960 e 1970, em razão das novas tendências da historiografia, que os pesquisadores brasileiros passam a utilizar os arquivos judiciais de modo mais sistemático. Tal fenômeno está relacionado com
- Aa própria natureza dos processos judiciais, cuja estrutura dialógica põe em cena litigantes de diferentes extratos sociais e estimula uma multiplicidade de versões e abordagens. (alternativa correta)
- Bo abandono e o descrédito de fontes discursivas e generalizantes, como a legislação, os relatórios administrativos e os relatos de viajantes.
- Ca criação dos cursos superiores de Arquivologia, formando bacharéis que passaram a produzir instrumentos de acesso aos arquivos do Poder Judiciário.
- Das recomendações do Conselho Internacional de Arquivos e dos organismos que o representam no Brasil: associações profissionais e Conselho Nacional de Arquivos (Conarq).
- Ea Lei de Acesso à Informação, liberando os arquivos dos órgãos judiciais dos prazos de confidencialidade e de sigilo que incidiam sobre a grande maioria dos processos por eles acumulados.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Os arquivos judiciais (processos, inventários, ações cíveis e criminais) são fontes ricas para a História Social porque, ao registrar conflitos, eles revelam vozes de pessoas comuns (escravos, mulheres, pobres) que não aparecem em documentos oficiais. A virada dos anos 1960/70 veio da percepção de que a estrutura dialógica do processo (acusação, defesa, testemunhas, sentença) permite ao historiador acessar múltiplas versões e práticas sociais, e não apenas a norma jurídica.
- (A) Correta: É exatamente isso: o processo judicial é um embate de narrativas entre partes de diferentes camadas sociais, o que permite ao historiador captar tensões, costumes e visões de mundo que outras fontes silenciam.
- (B) Incorreta: A banca tenta te enganar com um falso radicalismo: não houve "abandono" de fontes discursivas, mas sim uma ampliação do leque documental; relatos de viajantes e legislação continuam sendo usados, apenas com crítica.
- (C) Incorreta: A Arquivologia ajudou na organização dos acervos, mas não foi a causa do uso sistemático dos processos; a motivação foi teórico-metodológica (nova história, história vista de baixo), não a formação de bacharéis.
- (D) Incorreta: O Conselho Internacional de Arquivos e o Conarq atuam na gestão documental, mas não foram os responsáveis pela mudança de paradigma historiográfico; a influência veio de correntes como a Escola dos Annales e a micro-história.
- (E) Incorreta: A Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) é de 2011, muito posterior às décadas de 1960/70; além disso, a maioria dos processos judiciais antigos já era pública, e a lei não foi o motor dessa mudança. Armadilha: a banca usa um dado factual (lei real) para te fazer esquecer o recorte temporal da questão.
Fonte: FCC TRT2 2018 Analista Judiciário - Apoio Especializado - Especialidade História (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.