Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT18 2022 (nº 10)
[Cidades devastadas]
Em vinte anos eliminaram a minha cidade e edificaram uma cidade estranha. Para quem continuou morando lá, a amputação pode ter sido lenta, quase indolor; para mim, foi uma cirurgia de urgência, sem a inconsciência do anestésico.
Enterraram a minha cidade e muito de mim com ela. Por cima de nós construíram casas modernas, arranha-céus, agências bancárias; pintaram tudo, deceparam árvores, demoliram, mudaram fachadas. Como se tivessem o propósito de desorientar-me, de destruir tudo o que me estendia uma ponte entre o que sou e o que fui. Enterraram-me vivo na cidade morta.
Mas, feliz ou infelizmente, ainda não conseguiram soterrar de todo a minha cidade. Vou andando pela paisagem nova, desconhecida, pela paisagem que não me quer e eu não entendo, quando de repente, entre dois prédios hostis, esquecida por enquanto dos zangões imobiliários, surge, intacta e doce, a casa de Maria. Dói também a casa de Maria, mas é uma dor que conheço, íntima e amiga.
Não digo nada a ninguém, disfarço o espanto dessa descoberta para não chamar o empreiteiro das demolições. Ah, se eles, os empreiteiros, soubessem que aqui e ali repontam restos emocionantes da minha cidade em ruínas! Se eles soubessem que aqui e ali vou encontrando passadiços que me permitem cruzar o abismo!
(Adaptado de CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 209-210)
Nos dois parágrafos finais do texto, o cronista ressalta que,
- Apor conta da destruição de sua cidade, ele passou a imaginar inéditas emoções.
- Bem meio a tudo o que foi destruído, encontrou sinais de resiliência diante da devastação. (alternativa correta)
- Cpara atender a seus interesses, os empreiteiros preservam aqui e ali vestígios do passado.
- Dgraças a um antigo amor, recuperou uma visão abrangente de sua cidade perdida.
- Ediante de prédios novos, um antigo amor brotou por força da memória imaginativa.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Resiliência é a capacidade de algo ou alguém se adaptar e se recuperar de situações difíceis, mantendo sua essência ou partes dela apesar da adversidade. No texto, refere-se à persistência de elementos da cidade antiga e à capacidade do narrador de encontrar significado neles.
- (A) Incorreta: O texto não sugere que o cronista imaginou emoções inéditas; ele experimenta sentimentos (dor, espanto) a partir da descoberta de vestígios reais da cidade.
- (B) Correta: O cronista encontra a "casa de Maria" intacta e outros "restos emocionantes" e "passadiços", que são sinais de que sua cidade não foi completamente soterrada, demonstrando uma capacidade de persistência (resiliência) diante da devastação e permitindo-lhe cruzar o abismo entre o passado e o presente.
- (C) Incorreta: O texto afirma o oposto; a casa de Maria foi "esquecida por enquanto dos zangões imobiliários", e o cronista esconde suas descobertas "para não chamar o empreiteiro das demolições", indicando que os empreiteiros são agentes de destruição, não de preservação. Essa é a armadilha da banca, pois inverte o papel dos empreiteiros.
- (D) Incorreta: Embora a "casa de Maria" possa sugerir um antigo afeto, o texto não especifica que se trata de um amor romântico nem que ele recuperou uma visão abrangente da cidade, mas sim fragmentos e passagens.
- (E) Incorreta: A descoberta da "casa de Maria" é de um elemento físico real que sobreviveu, e não algo que "brotou por força da memória imaginativa" do cronista. A memória é ativada por um vestígio concreto.
Fonte: FCC TRT18 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Administrativa e Apoio Especializado) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.