Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 3)
Em O fim da teoria, Chris Anderson afirma que quantidades inimagináveis de dados (o Big Data) tornariam as teorias completamente obsoletas: "Hoje, empresas que cresceram em uma era de dados massivamente abundantes não precisam se contentar com modelos errados. Na verdade, elas não precisam mais se contentar com modelos". A psicologia ou sociologia orientada por dados torna possível prever e controlar com precisão o comportamento humano. As teorias estão sendo substituídas por dados diretos.
O Big Data, na verdade, não explica nada. Apenas revela correlações entre as coisas. Mas as correlações são a forma mais primitiva de conhecimento. Nada é compreendido nas correlações. O Big Data não é capaz de explicar por que as coisas se comportam da maneira como se comportam. Não são estabelecidas conexões causais nem conceituais.
A teoria como narração cria uma ordem de coisas, relacionando-as umas com as outras e explicando por que elas se comportam da maneira como se comportam. Em contraste com o Big Data, ela nos oferece a forma mais elevada de conhecimento, qual seja, a compreensão. O Big Data, por outro lado, é totalmente aberto.
A teoria na forma de desfecho prende as coisas em uma estrutura conceitual e as torna, com isso, apreensíveis. O fim da teoria significa, em última instância, dizer adeus ao conceito como espírito. A inteligência artificial funciona muito bem sem o conceito. Inteligência não é espírito. Somente o espírito é capaz de uma nova ordem das coisas, de uma nova narração. A inteligência calcula. O espírito, todavia, narra. Em um mundo saturado de dados e informações, a capacidade de narrar se atrofia. Com isso, a construção de teorias se torna algo mais raro, até mesmo arriscado.
A inteligência artificial não pode pensar porque não pode se apaixonar, porque não é capaz de uma narração apaixonada. Os diálogos de Platão já deixam claro que a filosofia é uma narração. A filosofia como ciência renega seu caráter narrativo originário. Ela se priva de sua linguagem. Emudece. Assim, a atual crise da narração também está se apoderando da filosofia e lhe pondo um fim. No instante em que a filosofia reivindica ser uma ciência, ser uma ciência exata, seu declínio começa.
(HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Trad. Daniel Guilhermino. Petrópolis: Editora Vozes, edição digital, 2023)
Com isso, a construção de teorias se torna algo mais raro, até mesmo arriscado.
O pronome sublinhado refere-se, no contexto,
- Aà teoria na forma de desfecho.
- Bà construção de teorias sem soluções.
- Cao decaimento da capacidade de narrar. (alternativa correta)
- Dao mau funcionamento da inteligência artificial.
- Eà nova capacidade de narrar, derivada da inteligência que calcula.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Pronomes de referência (ou anafóricos) são palavras que retomam termos ou ideias já mencionados no texto, evitando repetições e garantindo a coesão textual. Para identificar o referente de um pronome, deve-se buscar a informação mais próxima e logicamente conectada a ele no contexto.
- (A) Incorreta: A "teoria na forma de desfecho" é mencionada anteriormente no parágrafo, mas não é o antecedente imediato e direto que causa a raridade da construção de teorias.
- (B) Incorreta: A "construção de teorias sem soluções" não é o referente de "isso"; na verdade, a frase indica que a construção de teorias se torna rara e arriscada por causa do "isso". Esta é uma armadilha comum: confundir a consequência (a construção de teorias se tornar rara) com o referente do pronome (o que causou essa consequência).
- (C) Correta: O pronome "isso" retoma a ideia expressa na oração imediatamente anterior: "a capacidade de narrar se atrofia". "Atrofiar" significa diminuir, enfraquecer, o que é sinônimo de "decaimento". Portanto, o "decaimento da capacidade de narrar" é a causa para a construção de teorias se tornar mais rara.
- (D) Incorreta: O texto não fala de "mau funcionamento" da inteligência artificial, mas sim de suas limitações (não pode narrar, não tem espírito). Além disso, essa não é a ideia imediatamente anterior ao "Com isso".
- (E) Incorreta: O texto afirma o oposto: a inteligência artificial não é capaz de narração apaixonada e a inteligência calcula, enquanto o espírito narra. Não há uma "nova capacidade de narrar" derivada da IA.
Fonte: FCC TRT15 2024 Técnico Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.