Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF5 2017 (nº 10)
[Em torno da memória]
Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado "tal como foi", e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual.
Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista.
(Adaptado de Ecléa Bosi. Lembranças de velhos. S. Paulo: T. A. Queiroz, 1979, p. 17)
Está correto o emprego de ambos os segmentos sublinhados na frase:
- AO passado que confiamos não volta mais, e ainda que voltasse não lhe reconheceríamos tal e qual o imaginamos.
- BLembranças não são simples devaneios, dos quais exigem a quem as cultiva um verdadeiro trabalho de construção de imagens.
- CHá fatos no passado cuja percepção nos ocorre com frequência, mas por meio de imagens que os desfiguram inteiramente. (alternativa correta)
- DA nitidez em que atribuímos a certas memórias é muito enganosa, pois resulta de operações mentais que sequer desconfiamos.
- ENossas lembranças mais iluminadas podem ser, sobre um ponto de vista realista, meras simulações de espaços que nem tivemos acesso.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A regência do pronome relativo trata da relação que o pronome (como que, cujo, onde) estabelece com o verbo ou nome da oração, exigindo ou não uma preposição conforme a regência do termo regente. O pronome cujo concorda em gênero e número com o substantivo que o segue e indica posse.
- (A) Incorreta: O verbo "confiar" no sentido de "acreditar em" pede a preposição "em" ("em que confiamos"). O verbo "reconhecer" é transitivo direto, exigindo "o" ou "a" como pronome oblíquo ("não o reconheceríamos").
- (B) Incorreta: O verbo "exigir" no sentido de "pedir algo a alguém" pede a preposição "de" para o objeto indireto ("de quem as cultiva"). A construção "dos quais exigem" está gramaticalmente incorreta para o contexto.
- (C) Correta: O pronome cuja estabelece posse ("a percepção dos fatos") e concorda com "percepção" (feminino singular). O pronome que retoma "imagens" e "os" (objeto direto) retoma "fatos", com o verbo "desfigurar" sendo transitivo direto, tudo corretamente empregado.
- (D) Incorreta: O verbo "atribuir" (atribuir algo a alguém/algo) não pede "em que" para "nitidez" (seria "que atribuímos"). O verbo "desconfiar" pede a preposição "de" ("de que desconfiamos").
- (E) Incorreta: A expressão correta é "sob um ponto de vista" ou "de um ponto de vista". O verbo "ter acesso" pede a preposição "a" ("a que nem tivemos acesso").
Fonte: FCC TRF5 2017 Conhecimentos Comuns (Analista TRF5 2017) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.