Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF5 2017 (nº 3)
Juízo de valor
Um juízo de valor tem como origem uma percepção individual: alguém julga algo ou outra pessoa tomando por base o que considera um critério ético ou moral. Isso significa que diversos indivíduos podem emitir diversos juízos de valor para uma mesma situação, ou julgar de diversos modos uma mesma pessoa. Tais controvérsias são perfeitamente naturais; o difícil é aceitá-las com naturalidade para, em seguida, discuti-las. Tendemos a fazer do nosso juízo de valor um atestado de realidade: o que dissermos que é, será o que dissermos. Em vez da naturalidade da controvérsia a ser ponderada, optamos pela prepotência de um juízo de valor dado como exclusivo.
Com o fenômeno da expansão das redes sociais, abertas a todas as manifestações, juízos de valor digladiam-se o tempo todo, na maior parte dos casos sem proveito algum. Sendo imperativa, a opinião pessoal esquiva-se da controvérsia, pula a etapa da mediação reflexiva e instala-se no posto da convicção inabalável. À falta de argumentos, contrapõem-se as paixões do ódio, do ressentimento, da calúnia, num triste espetáculo público de intolerância.
Constituem uma extraordinária orientação para nós todos estas palavras do grande historiador Eric Hobsbawm: “A primeira tarefa do historiador não é julgar, mas compreender, mesmo o que temos mais dificuldade para compreender. O que dificulta a compreensão, no entanto, não são apenas as nossas convicções apaixonadas, mas também a experiência histórica que as formou.” A advertência de Hobsbawm não deve interessar apenas aos historiadores, mas a todo aquele que deseja dar consistência e legitimidade ao juízo de valor que venha a emitir.
(Péricles Augusto da Costa, inédito)
Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
- Aemitir diversos juízos de valor (1º parágrafo) = incitar julgamentos diversificados.
- Bnaturalidade da controvérsia (1º parágrafo) = espontaneidade da insubmissão.
- Cjuízos de valor digladiam-se (2º parágrafo) = aferições vão ao encontro.
- DSendo imperativa (2º parágrafo) = Uma vez autoritária. (alternativa correta)
- Edeseja dar consistência (3º parágrafo) = volta-se para o que consiste.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Interpretar o sentido de uma palavra ou expressão no texto significa entender o que ela realmente quer dizer naquele contexto específico, e não apenas seu significado literal ou mais comum. É como traduzir a intenção do autor para uma linguagem equivalente.
- (A) Incorreta: "Emitir" significa expressar, proferir; "incitar" significa estimular, provocar. O texto fala em expressar juízos, não em provocá-los.
- (B) Incorreta: "Naturalidade da controvérsia" refere-se à normalidade ou caráter esperado do debate de ideias; "insubmissão" significa rebeldia, que não se alinha ao sentido de controvérsia como discussão de opiniões. Armadilha: A palavra "naturalidade" pode levar a pensar em "espontaneidade", mas o complemento "da controvérsia" não se alinha com "da insubmissão", que tem um sentido de rebeldia.
- (C) Incorreta: "Digladiam-se" significa lutam, confrontam-se; "vão ao encontro" significa concordam, convergem, o que é o oposto.
- (D) Correta: "Imperativa" no contexto de uma opinião significa que ela se impõe, não admite discussão, é obrigatória ou dogmática. "Autoritária" descreve bem essa característica de uma opinião que se impõe sem questionamentos, como se tivesse autoridade absoluta.
- (E) Incorreta: "Dar consistência" significa dar solidez, fundamento, coerência. "Volta-se para o que consiste" é uma construção que não transmite a ideia de fundamentar ou tornar algo robusto.
Fonte: FCC TRF5 2017 Conhecimentos Comuns (Analista TRF5 2017) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.