Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 5)
Escolha ética do sujeito
Afirma o psiquiatra e terapeuta suíço Carl Gustav Jung, em seu livro Memórias, sonhos e reflexões: “Quando se toca no mal, corre-se o risco iminente de se sucumbir a ele. O homem, de um modo geral, não deve sucumbir nem mesmo ao bem. Um pretenso bem ao qual se sucumbe perde seu caráter moral, não porque tenha se tornado um mal em si, mas porque simplesmente se sucumbiu a ele.”
Nessa passagem Jung faz compreender a condicionante decisiva desse especial e mais grave “sucumbir” que nos vitima: nossa submissão sem volta a um campo de julgamento em que os valores já estão firmados e cristalizados em polarizações mecânicas.
Para Jung, o bem e o mal “constituem, juntamente, um todo paradoxal”. E continua: “o indivíduo [...] procura ansiosamente as regras e as leis exteriores às quais possa ater-se cegamente nos momentos de perplexidade”. E lembra ele que é comum atribuir a essas regras e leis exteriores a qualificação definitiva de “fatos”, antes mesmo de qualquer busca de comprovação.
Pode parecer-nos oportuno abandonar, por exemplo, a complexidade dos desafios do nosso tempo para nos submetermos à ideologia mais confortável e simplificadora, à qual passamos a nos agarrar sem sombra de reflexão mais séria. Escolhemos aquilo que nos parece mais natural, mais fácil. No entanto, antes de julgar o valor da específica escolha adotada no cardápio vicioso de valores já assentados, Jung considera, assim, o malefício fundamental do nosso acatamento irrefletido de uma escolha que, a rigor, sequer chegamos a escolher.
É gramaticalmente regular a substituição proposta para o elemento sublinhado na frase:
- Aleis exteriores às quais possa ater-se = das quais possa fixar-se.
- Bé comum atribuir a essas regras = delegar nessas.
- Cà qual passamos a nos agarrar = mediante a qual.
- DUm pretenso bem ao qual se sucumbe perde seu caráter moral = pelo qual se é deixado levar. (alternativa correta)
- E(...) desse especial e mais grave “sucumbir” que nos vitima = de cujo somos vítimas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Para que uma substituição seja gramaticalmente regular, ela deve manter a regência verbal (a preposição exigida pelo verbo) e o sentido original da frase.
A) Incorreta: "ater-se a" exige a preposição "a" (às quais), enquanto "fixar-se" no sentido de aderir ou basear-se, geralmente pede "em" ou "a", não "de". A regência e o sentido são alterados.
B) Incorreta: "atribuir a" significa conferir ou dar algo a alguém/algo. "Delegar nessas" (delegar em + essas) não é uma regência padrão para "delegar" no sentido de atribuir uma qualificação, e altera o sentido. "Delegar" geralmente pede objeto direto e indireto com "a" (delegar algo a alguém).
C) Incorreta: "agarrar-se a" significa apegar-se firmemente. "Mediante a qual" significa "por meio da qual", alterando completamente o sentido de apego para o de um instrumento ou meio.
D) Correta: "sucumbir a" significa ceder, ser vencido por algo. "Ser deixado levar por" significa ser influenciado, ceder à influência de algo. Ambas as expressões transmitem a ideia de ceder ou ser dominado por algo, e as preposições ("a" para "sucumbir" e "por" para "ser deixado levar") estão corretamente empregadas com os pronomes relativos.
E) Incorreta: "Cujo" é um pronome relativo possessivo e deve vir sempre acompanhado de um substantivo (ex: "de cujo livro somos vítimas"). A construção "de cujo somos vítimas" está gramaticalmente incorreta, pois "somos vítimas" é uma locução verbal, não um substantivo.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Analista Apoio TRF4 2025) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.