Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 2)
Escolha ética do sujeito
Afirma o psiquiatra e terapeuta suíço Carl Gustav Jung, em seu livro Memórias, sonhos e reflexões: “Quando se toca no mal, corre-se o risco iminente de se sucumbir a ele. O homem, de um modo geral, não deve sucumbir nem mesmo ao bem. Um pretenso bem ao qual se sucumbe perde seu caráter moral, não porque tenha se tornado um mal em si, mas porque simplesmente se sucumbiu a ele.”
Nessa passagem Jung faz compreender a condicionante decisiva desse especial e mais grave “sucumbir” que nos vitima: nossa submissão sem volta a um campo de julgamento em que os valores já estão firmados e cristalizados em polarizações mecânicas.
Para Jung, o bem e o mal “constituem, juntamente, um todo paradoxal”. E continua: “o indivíduo [...] procura ansiosamente as regras e as leis exteriores às quais possa ater-se cegamente nos momentos de perplexidade”. E lembra ele que é comum atribuir a essas regras e leis exteriores a qualificação definitiva de “fatos”, antes mesmo de qualquer busca de comprovação.
Pode parecer-nos oportuno abandonar, por exemplo, a complexidade dos desafios do nosso tempo para nos submetermos à ideologia mais confortável e simplificadora, à qual passamos a nos agarrar sem sombra de reflexão mais séria. Escolhemos aquilo que nos parece mais natural, mais fácil. No entanto, antes de julgar o valor da específica escolha adotada no cardápio vicioso de valores já assentados, Jung considera, assim, o malefício fundamental do nosso acatamento irrefletido de uma escolha que, a rigor, sequer chegamos a escolher.
Ao considerar os valores a que podemos sucumbir, Jung considera que
- Aa mais grave das submissões está em nos resignarmos a acatar irrefletidamente normas externas de conduta. (alternativa correta)
- Bnos momentos de perplexidade devemos avaliar a possibilidade de se escolher com ligeireza entre o bem e o mal.
- Csó os parâmetros marcadamente benévolos podem ser aceitos por nós sem qualquer restrição.
- Da submissão ao mal é uma característica de quem não avaliou as vantagens inequívocas do bem.
- Epara virmos a adotar qualquer atitude ética precisamos confiar na nossa capacidade intuitiva.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O conceito-chave é que a verdadeira escolha ética exige reflexão e não a simples aceitação de valores externos, mesmo que pareçam bons, pois sucumbir a eles de forma irrefletida anula seu caráter moral.
(A) Correta: A passagem destaca que o "malefício fundamental" é o "acatamento irrefletido de uma escolha que, a rigor, sequer chegamos a escolher", referindo-se à submissão a valores já firmados e cristalizados, o que se alinha perfeitamente com "resignarmos a acatar irrefletidamente normas externas de conduta".
(B) Incorreta: O texto critica a busca por regras exteriores para se ater "cegamente nos momentos de perplexidade" e a escolha do que parece "mais fácil" sem reflexão, o oposto de uma avaliação com ligeireza.
(C) Incorreta: Jung afirma explicitamente que "o homem, de um modo geral, não deve sucumbir nem mesmo ao bem", pois um "pretenso bem ao qual se sucumbe perde seu caráter moral" se for aceito irrefletidamente.
(D) Incorreta: O texto não foca na comparação entre as vantagens do bem e do mal, mas sim no ato de sucumbir irrefletidamente a qualquer um deles, enfatizando que a submissão em si é o problema, não a falta de avaliação das vantagens do bem.
(E) Incorreta: O texto não menciona a capacidade intuitiva como base para a atitude ética; pelo contrário, ele enfatiza a necessidade de reflexão e a crítica à submissão irrefletida a valores externos.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Analista Apoio TRF4 2025) (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.