Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 11)
[Pai e filho]
No romance Paradiso o grande escritor cubano José Lezama Lima diz que um ser humano só começa a envelhecer depois da morte do pai. Freud atribui a essa morte um dos grandes traumas de um filho.
A amizade e a cumplicidade quase sempre prevalecem sobre as discussões, discórdias e outras asperezas de uma relação às vezes complicada, mas sempre profunda. Às vezes você lamenta não ter conversado mais com o seu pai, não ter convivido mais tempo com ele. Mas há também pais terríveis, opressores e tirânicos.
Exemplo desse caso está na literatura, na Carta ao pai*, de Franz Kafka. É esse um dos exemplos notáveis do pai castrador, que interfere nas relações amorosas e na profissão do filho. Um pai que não se conforma com um grão de felicidade do jovem Franz.*
A Carta é o inventário de uma vida infernal. É difícil saber até que ponto o pai de Kafka na Carta é totalmente verdadeiro. Pode se tratar de uma construção ficcional ou um pai figurado, mais ou menos próximo do verdadeiro. Mas isso atenua o sofrimento do narrador? O leitor acredita na figuração desse pai. Em cada página, o que prevalece é uma alternância de sofrimento e humilhação, imposta por um homem prepotente e autoritário.
(Adaptado de: HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 204-205)
Está plenamente adequada a pontuação da seguinte frase:
- AO grande escritor cubano José Lezama Lima no romance Paradiso, tece uma consideração, a respeito da morte do pai.
- BFreud ao tratar da morte do pai, considera-a um dos grandes traumas, que podem acometer a um filho.
- CEmbora haja asperezas, na relação de um pai e um filho, há também, por outro lado muita amizade e cumplicidade.
- DAo escrever a Carta ao pai em que faz uma espécie de inventário infernal, Kafka não deixa de mostrar-se alternadamente, sofrido e humilhado.
- EAinda que afastada da figura do pai real, sua construção ficcional, promovida por Kafka, expressa em alto grau o sofrimento de um filho. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A pontuação correta em Português evita separar termos que têm uma ligação sintática direta e essencial, como o sujeito do verbo, o verbo do seu complemento (objeto direto ou indireto) e o nome do seu adjunto adnominal, a menos que haja um elemento intercalado que exija vírgulas. As vírgulas são usadas principalmente para isolar elementos deslocados (como adjuntos adverbiais longos ou orações adverbiais antes da principal), apostos, vocativos e orações adjetivas explicativas.
- (A) Incorreta: Há vírgulas indevidas separando o sujeito ("José Lezama Lima") do verbo ("tece") e o verbo ("tece") do seu objeto direto ("uma consideração").
- (B) Incorreta: A vírgula após "traumas" separa indevidamente o predicativo do objeto ("um dos grandes traumas") da oração subordinada adjetiva restritiva que o complementa ("que podem acometer a um filho").
- (C) Incorreta: A vírgula após "também" separa o verbo ("há") do seu sujeito ("muita amizade e cumplicidade"). Além disso, a expressão "por outro lado" deveria estar isolada por duas vírgulas ("há também, por outro lado, muita amizade...").
- (D) Incorreta: A vírgula após "alternadamente" separa indevidamente o advérbio dos predicativos do sujeito ("sofrido e humilhado") que ele modifica. O correto seria "mostrar-se alternadamente sofrido e humilhado" ou, se a ênfase exigisse, "mostrar-se, alternadamente, sofrido e humilhado".
- (E) Correta: A frase está plenamente adequada. A vírgula após "real" isola uma oração subordinada adverbial deslocada. As vírgulas antes de "promovida" e depois de "Kafka" isolam uma oração subordinada adjetiva reduzida de particípio com valor explicativo, que se refere a "sua construção ficcional". Não há vírgulas separando sujeito do verbo ou verbo do objeto, e o adjunto adverbial "em alto grau" está corretamente posicionado sem vírgulas, pois é curto e não causa ambiguidade.
Fonte: FCC TRF4 2019 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.