Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2018 (nº 4)
Comunicação e informação
Dizer mídia, sem mais nem menos, é uma abstração. O que conta são os jornalistas, as pessoas. E essas são boas ou más, inteligentes ou estúpidas, honestas ou desonestas, como toda a gente. O pior jornalista é aquele que se comporta como um camaleão, sempre preparado para mudar de cor conforme o ambiente. A lógica empresarial das tiragens e das audiências convida inevitavelmente ao sensacionalismo, à manobra rasteira, ao compadrio, aos pactos ocultos. Não há muita política nas colunas dos jornais, o que há é muitos políticos. Ambições, em vez de ideias. (...)
Quanto às matérias veiculadas, a superabundância de informação pode fazer do cidadão um ser muito mais ignorante. Explico-me: creio que as possibilidades tecnológicas para desenvolver a massificação das informações surgiram rapidamente demais. O cidadão não dispõe dos elementos e da formação adequados para saber escolher e selecionar, o que o leva a ficar perdido no meio dessa selva. É justamente nessa defasagem que se produz a instrumentalização em prejuízo do indivíduo e, portanto, a desinformação.
(Adaptado de: SARAMAGO, José. As palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 442-443)
Entre os recursos de construção textual valeu-se o autor, no segmento
- Aboas ou más, inteligentes ou estúpidas, de qualidades emparelhadas pelo critério da simultaneidade com que ocorrem.
- Bà manobra rasteira, ao compadrio, aos pactos ocultos, de uma enumeração em que se aproximam aspectos de uma mesma qualidade negativa. (alternativa correta)
- Ca superabundância de informação pode fazer do cidadão um ser muito mais ignorante, de uma afirmação irônica, a ser reconsiderada no período seguinte.
- DO cidadão não dispõe dos elementos, de um uso pouco frequente do verbo dispor, aqui empregado no sentido de pretender.
- Eficar perdido no meio dessa selva, do efeito de uma figura de linguagem, tal como ocorrera em A lógica empresarial das tiragens.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Enumeração é uma lista de termos que se somam para reforçar uma ideia. Quando o autor lista “manobra rasteira, compadrio, pactos ocultos”, ele não está listando coisas diferentes, mas sim sinônimos aproximados que apontam para a mesma corrupção ética no jornalismo — um recurso de gradação para intensificar a crítica.
- (A) Incorreta: “boas ou más, inteligentes ou estúpidas” são pares de opostos (antônimos), não qualidades simultâneas; a simultaneidade seria “boas e más”, não “ou”.
- (B) Correta: Os três termos são variações da mesma qualidade negativa (falta de ética), formando uma enumeração que reforça por acúmulo a crítica ao jornalismo corrupto.
- (C) Incorreta: A frase é literal e direta, não irônica; o período seguinte (“Explico-me”) confirma e desenvolve a ideia, não a contradiz.
- (D) Incorreta: “Dispor” aqui significa ter à disposição/possuir, sentido comum e frequente; “pretender” seria “dispor-se a”, que não se aplica ao contexto.
- (E) Incorreta: “selva” é metáfora (comparação implícita com caos), mas “lógica empresarial” é expressão denotativa (sentido literal), sem figura de linguagem — a pegadinha está em achar que qualquer expressão “forte” é figurada.
Fonte: FCC SEDU-ES 2018 Conhecimentos Comuns (Professor B / Pedagogo) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.