Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC PM-AP 2025 (nº 11)
[A força necessária dos princípios]
Não vamos subestimar a força daquilo a que nos opomos. O mundo é, para todos nós, aquilo sobre o qual não temos quase nenhum controle. O senso comum e o sentido de autoproteção nos dizem para nos acomodarmos àquilo que não podemos mudar.
Não é difícil ver como alguns de nós poderíamos ser convencidos da justiça, da necessidade das violências. Pense-se numa guerra que é formulada como série de ações militares pequenas, que irão de fato contribuir para a paz ou reforçar a segurança. Todas as violências na guerra foram justificadas como uma retaliação necessária: estamos nos defendendo, eles é que querem nos matar.
Diante das violências em curso, alguém dotado de um princípio moral parece alguém que corre ao lado de um trem e grita: "Pare! Pare!" O trem pode ser detido? Será que outras pessoas dentro do trem vão se sentir dispostas a saltar e unir-se aos que estão fora? Talvez alguns o façam, mas não a maioria.
Agir por princípio é um gesto político, no sentido de que não estamos fazendo isso por nós mesmos. Não fazemos isso só para agir corretamente ou para aplacar a nossa consciência; muito menos porque estamos certos de que a nossa ação vai de fato alcançar o seu objetivo. Resistimos como um ato de solidariedade com todas as pessoas e comunidades que agem igualmente por algum princípio moral.
As ações comandadas por um bom princípio nos dizem que não temos de pensar se agir por princípio é adequado, ou se podemos contar com o êxito final das ações que levamos a efeito. Agir por princípio é bom em si mesmo. Os princípios nos convidam a fazer algo a respeito do pântano de contradições em que agimos moralmente. Os princípios nos convidam a ter mais rigor em nossas ações, ser intolerantes com a frouxidão moral, a contemporização, a covardia e com a fuga diante do que é perturbador. No curso da História encontram-se os grandes modelos de resistência, os feitos daqueles que, por princípio, agiram dizendo não à negação dos princípios justos. Inspiremo-nos nesses modelos.
(Adaptado de: SONTAG, Susan. Ao mesmo tempo. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo, Companhia das Letras, p.192-193, passim)
A ideia central desenvolvida no parágrafo
- Aquinto é demonstrar que toda resistência histórica suprime a necessidade de negar.
- Bprimeiro é ressaltar a importância relativa do senso comum, na conduta das pessoas.
- Csegundo consiste em justificar as violências sociais quando apoiadas em sólidos princípios.
- Dterceiro ilustra-se na dificuldade de se ajustar um ideal da consciência ao plano da realidade. (alternativa correta)
- Equarto está em comprovar o sucesso dos princípios quando atrelados a um projeto político.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A "ideia central" de um parágrafo é a mensagem principal que o autor quer transmitir naquele trecho específico, o ponto mais importante ou a conclusão que ele apresenta. Para identificá-la, leia o parágrafo e pergunte-se: "Sobre o que o autor está realmente falando aqui? Qual é a sua principal afirmação ou argumento?".
- (A) Incorreta: O quinto parágrafo fala sobre a importância de agir por princípio, inspirando-se em modelos históricos que "disseram não à negação dos princípios justos". Não afirma que a resistência "suprime a necessidade de negar", mas sim que a resistência é a negação do que é injusto, um ato de rigor moral.
- (B) Incorreta: O primeiro parágrafo descreve como o senso comum e o instinto de autoproteção nos levam a nos acomodar. Ele não ressalta a "importância relativa" do senso comum de forma neutra ou positiva, mas sim o apresenta como uma força que nos impede de agir, que o texto, no geral, busca questionar.
- (C) Incorreta: O segundo parágrafo descreve como as violências são justificadas (como retaliação ou para a paz), mas não consiste em justificar essas violências. Pelo contrário, o texto como um todo se opõe a essa lógica, usando esses exemplos para mostrar a facilidade com que as pessoas podem ser convencidas de falsas justificativas.
- (D) Correta: O terceiro parágrafo usa a metáfora do indivíduo com princípios morais correndo ao lado de um trem (a realidade das violências em curso) e gritando "Pare!". A pergunta "O trem pode ser detido?" e a dúvida sobre a adesão da maioria ("Talvez alguns o façam, mas não a maioria") ilustram perfeitamente a dificuldade de fazer com que um ideal (parar a violência, agir por princípio) se concretize ou seja aceito na realidade prática e avassaladora.
- (E) Incorreta: O quarto parágrafo afirma que agir por princípio é um gesto político e um ato de solidariedade, mas explicitamente diz: "muito menos porque estamos certos de que a nossa ação vai de fato alcançar o seu objetivo". Ou seja, não comprova o sucesso, mas enfatiza a importância da ação em si, independentemente do êxito final.
Fonte: FCC PM-AP 2025 Oficial Combatente da Polícia Militar do Estado do Amapá (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.