Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPMT 2019 (nº 12)
Antropologia reversa
É sempre tarefa difícil – no limite, impossível – compreender o outro não a partir de nós mesmos, ou seja, de nossas categorias e preocupações, mas de sua própria perspectiva e visão de mundo. “Quando os antropólogos chegam”, diz um provérbio haitiano, “os deuses vão embora”.
Os invasores coloniais europeus, com raras exceções, consideravam os povos autóctones do Novo Mundo como crianças amorais ou boçais supersticiosos – matéria escravizável. Mas como deveriam parecer aos olhos deles aqueles europeus? “Onde quer que os homens civilizados surgissem pela primeira vez”, resume o filósofo romeno Emil Cioran, “eles eram vistos pelos nativos como demônios, como fantasmas ou espectros, nunca como homens vivos! Eis uma intuição inigualável, um insight profético, se existe um”.
O líder ianomâmi Davi Kopenawa, porta-voz de um povo milenar situado no norte da Amazônia e ameaçado de extinção, oferece um raro e penetrante registro contra-antropológico do mundo branco com o qual tem convivido: “As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes [...] Seu pensamento está tão preso a elas, são de fato apaixonados por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança saudosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”.
(Adaptado de GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 118-119)
É plenamente adequada a correlação entre os tempos e os modos verbais na frase:
- ASeria de se supor que um nativo venha a estranhar os colonizadores do mesmo modo que estes viriam a com ele se espantar.
- BNão se apresentaria como fácil a plena compreensão que alguém se dispusesse a ter da cultura que se sustentasse em outros valores. (alternativa correta)
- CPara que venham a ser compreendidos os valores de uma cultura, houvera de se esforçar quem os buscar analisar mais de perto.
- DSegundo supõe Davi Kopenawa, os brancos não poderiam sonhar tão longe quanto os nativos porque estejam presos ao mundo das mercadorias.
- EAo se depararem com os nativos, tão logo chegados ao Novo Mundo, os colonizadores passassem a julgá-los como criaturas amorais e infantilizadas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A correlação verbal é a harmonia entre os tempos e modos dos verbos em uma frase ou período, garantindo que a sequência das ações e a intenção (certeza, possibilidade, condição, desejo) sejam lógicas e gramaticalmente corretas.
- (A) Incorreta: A sequência "seria" (futuro do pretérito) com "venha" (presente do subjuntivo) e "viriam" (futuro do pretérito) é possível, mas a combinação "seria... venha... viriam" não é tão plenamente adequada quanto outras correlações, pois o presente do subjuntivo ("venha") pode quebrar a consistência condicional/hipotética que o futuro do pretérito ("seria", "viriam") estabelece. Uma opção mais harmônica seria "viesse" (imperfeito do subjuntivo) para manter a condicionalidade.
- (B) Correta: A correlação entre "não se apresentaria" (futuro do pretérito do indicativo) e "que alguém se dispusesse a ter" (imperfeito do subjuntivo) e "que se sustentasse" (imperfeito do subjuntivo) está perfeita. O futuro do pretérito expressa uma condição ou possibilidade, e o imperfeito do subjuntivo é o tempo adequado para expressar a condição ou a hipótese que o acompanha (ex: "Eu faria se ele viesse").
- (C) Incorreta: A combinação de "Para que venham a ser compreendidos" (presente do subjuntivo, indicando finalidade futura) com "houvera de se esforçar" (mais-que-perfeito do indicativo, indicando uma ação passada anterior a outra passada) e "quem os buscar analisar" (futuro do subjuntivo) é incoerente. O mais-que-perfeito do indicativo ("houvera") não se correlaciona bem com a finalidade expressa no presente do subjuntivo ("venham").
- (D) Incorreta: A armadilha aqui está no uso de "porque estejam presos". Após "supõe" (presente do indicativo) e "não poderiam sonhar" (futuro do pretérito), a conjunção "porque" introduz uma causa. Para expressar uma causa que é apresentada como um fato ou uma forte crença (mesmo que seja a crença de Kopenawa), o modo indicativo seria o correto: "porque estão presos". O uso do presente do subjuntivo ("estejam") introduz uma ideia de dúvida, hipótese ou desejo, o que não se encaixa na expressão de uma causa direta.
- (E) Incorreta: O uso de "passassem a julgá-los" (imperfeito do subjuntivo) como a oração principal é inadequado. O imperfeito do subjuntivo geralmente depende de outra oração que expressa condição, desejo, possibilidade, etc. Para expressar uma ação passada factual dos colonizadores, o correto seria o pretérito perfeito do indicativo ("passaram a julgá-los") ou o pretérito imperfeito do indicativo ("passavam a julgá-los").
Fonte: FCC MPMT 2019 Promotor de Justiça Substituto (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.