Questão nº 12

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 12)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.

Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.

Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.

Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.

A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.

Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)


Pode-se inferir da argumentação de Pierre Clastres que

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O texto de Pierre Clastres argumenta que, embora os mitos sejam narrativas sérias e profundas, há uma tendência a interpretá-los apenas sob essa ótica, ignorando um aspecto crucial: o humor. Ele defende que os mitos, especialmente os indígenas, podem ser simultaneamente solenes e engraçar seus ouvintes, servindo também como forma de distração e desdramatização da vida.

  • (A) Incorreta: O texto não aborda a atenuação de diferenças culturais, mas sim uma nuance na interpretação de uma manifestação cultural específica (os mitos).
  • (B) Incorreta: O foco do texto não é a falta de conhecimento da nossa própria cultura, mas sim a interpretação (ou a falha nela) dos mitos indígenas.
  • (C) Incorreta: Embora o texto proponha uma correção a uma interpretação anterior (a de Lévi-Strauss), a alternativa generaliza demais ao falar de "nossos métodos de pesquisa se acomodam rapidamente às primeiras descobertas". A crítica de Clastres é mais específica sobre o conteúdo da interpretação dos mitos.
  • (D) Correta: O texto inicia reconhecendo que "tomando resolutamente a sério as narrativas" os mitos foram elevados a um plano de pensamento. No entanto, o segundo parágrafo introduz a ressalva: "o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito 'a sério' desta vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento", destacando o esquecimento de seu "humor". Isso mostra que a interpretação exclusivamente séria é vista como inadequada por Clastres.
  • (E) Incorreta: O texto de fato reconhece o sentido profundo dos mitos ("verdade dos mitos"), mas a principal inferência da argumentação de Clastres, especialmente a partir do segundo parágrafo, é a necessidade de incluir o humor na interpretação, e não a discussão sobre "bases universais de análise".

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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