Questão nº 8

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 8)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.

Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.

Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.

Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.

A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.

Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)


Quanto à coesão do texto, é correto afirmar que

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

Coesão textual é a conexão entre as partes de um texto, feita por meio de recursos linguísticos que garantem a fluidez e a unidade das ideias. Ela pode ser referencial (quando um termo remete a outro) ou sequencial (quando conecta orações e parágrafos).

  • (A) Incorreta: Embora "mito" e "narrativas" contribuam para a coesão por repetição/sinonímia, "hilaridade" e "cacarejos" não são sinônimos ou derivados de "mito"; eles se referem ao riso, um efeito dos mitos, e não ao próprio referente "mito". A inclusão desses termos desqualifica a alternativa.
  • (B) Correta: Esta alternativa descreve corretamente dois importantes mecanismos de coesão presentes no texto: o uso de pronomes (coesão referencial anafórica) para retomar termos e evitar repetições, e a utilização de diferentes termos com a mesma referência ("selvagem", "índio", "primitivo", "membro da tribo") para se referir ao mesmo grupo de pessoas, mantendo a continuidade temática sem repetição exata.
  • (C) Incorreta: A oposição entre pensamento mítico e humor é um aspecto da coerência (sentido e lógica do texto), não da coesão (ligação gramatical e lexical). Embora a segunda parte sobre pronomes esteja correta, a primeira invalida a afirmação sobre coesão.
  • (D) Incorreta: Expressões adverbiais como as citadas contribuem para a coesão sequencial e argumentativa (modalização, tempo), mas afirmar que a coesão se articula a partir delas sugere que são o principal ou único recurso, o que não é verdade. A coesão do texto é mais abrangente.
  • (E) Incorreta: A pontuação expressiva não é um mecanismo primário de coesão textual, e a alternância de tempos verbais, embora importante para a coerência temporal, não é o principal recurso de coesão que estrutura o texto, nem indica um "percurso temporal" como foco.

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

Continue estudando

Estudar é izi

Pratique milhares de questões como esta, de graça, com explicação e gamificação no Quizinho.

Estudar de graça no Quizinho