Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 5)
Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.
Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)
... não devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes... (3º parágrafo)
Uma nova redação para a frase acima, em que se mantêm a clareza, o sentido e a correção, está em:
- ANão devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam e, todavia, considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes...
- BNão só devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam, mas também considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes...
- CNão devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam, a fim de considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes...
- DNão devemos nem subestimar o alcance real do riso que eles provocam, nem considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes...
- ENão devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam, mas considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes... (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A reescrita e equivalência sintática buscam reformular uma frase mantendo seu sentido original, a clareza da mensagem e a correção gramatical. Isso envolve, muitas vezes, a substituição de conectivos ou a alteração da estrutura semântica sem mudar a intenção do autor.
Análise da frase original:
"... não devemos subestimar o alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes..."
O contexto do parágrafo indica que o autor defende a ideia de que os mitos podem ser sérios e engraçados. Assim, a frase significa: "Não devemos subestimar o riso (aspecto cômico) E (ao mesmo tempo) devemos considerar que um mito pode falar de coisas solenes (aspecto sério)." O "e" aqui conecta uma proibição ("não devemos subestimar") com uma recomendação ("devemos considerar"), funcionando como um conector de adição que, implicitamente, também estabelece um contraste ou uma complementariedade.
Comentário das alternativas:
- (A) Incorreta: A expressão "e, todavia," introduz uma ideia de contraste ou ressalva, mas o "e" inicial ainda mantém uma ligação aditiva que não é a mais precisa para o contraste entre "não subestimar" e "considerar".
- (B) Incorreta: A construção "Não só devemos subestimar" inverte completamente o sentido da primeira parte da frase, transformando uma proibição ("não devemos subestimar") em uma permissão ou obrigação ("devemos subestimar").
- (C) Incorreta: "a fim de" indica finalidade ou propósito. A frase original não sugere que "não subestimar o riso" seja um meio para "considerar a solenidade", mas sim duas ações (uma negativa e uma positiva) que devem ser tomadas em conjunto.
- (D) Incorreta: Esta é a armadilha da banca. A construção "nem... nem..." significa "nem isto, nem aquilo", ou seja, ambas as ações são proibidas. No entanto, a intenção do autor é que não devemos subestimar o riso, mas devemos considerar a solenidade dos mitos. Portanto, "nem considerar" contradiz o sentido de que a solenidade também deve ser reconhecida.
- (E) Correta: A conjunção "mas" estabelece um contraste claro e preciso entre a primeira parte negativa ("não devemos subestimar o riso") e a segunda parte positiva implícita ("mas [devemos] considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes"). Essa formulação mantém o sentido original de que devemos reconhecer tanto o humor quanto a seriedade dos mitos.
Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.