Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 11)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.

Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.

Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.

Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.

A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.

Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)


Caso a oração sublinhada no segmento ... nos levar a tomá-los muito "a sério" desta vez e [...] a avaliar mal sua dimensão de pensamento... (2º parágrafo) seja subordinada à anterior, atribui-se um sentido adequado ao contexto em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

A oração subordinada é aquela que depende sintaticamente de outra (a oração principal) para ter sentido completo, enquanto a oração coordenada tem sentido completo por si só e se liga a outra oração independente. A questão pede para transformar uma ideia inicialmente coordenada em uma subordinada, mantendo o sentido original de que o risco de tomar os mitos muito a sério pode levar a uma avaliação incorreta.

  • (A) Incorreta: A expressão "mais... do que" estabelece uma relação de comparação, alterando o sentido original que indicava duas consequências ou aspectos do mesmo risco, não uma hierarquia entre eles.
  • (B) Incorreta: A expressão "tão... quanto" também estabelece uma relação de comparação de igualdade, que não estava implícita na conjunção "e" original, que apenas adicionava as duas ações como parte do risco.
  • (C) Correta: Esta alternativa reescreve a frase utilizando uma oração subordinada adverbial consecutiva ("a tal ponto que avaliemos mal..."). Isso significa que tomar os mitos "a sério" em demasia (a tal ponto) tem como consequência a avaliação inadequada de sua dimensão de pensamento, o que é uma interpretação válida e comum da relação implícita na conjunção "e" em contextos de causa e efeito ou intensidade e resultado.
  • (D) Incorreta: A conjunção "portanto" introduz uma conclusão, estabelecendo uma relação de coordenação conclusiva, e não de subordinação, conforme solicitado pela questão. Embora "demasiadamente" sugira uma causa, a estrutura com "portanto" não cria uma oração subordinada.
  • (E) Incorreta: A expressão "para que" introduz uma oração subordinada adverbial final (de finalidade ou propósito). Isso alteraria drasticamente o sentido, sugerindo que o propósito de tomar os mitos a sério seria avaliá-los mal, o que não corresponde à ideia de "risco" presente no texto original.

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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