Questão nº 6

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 6)

FCC2018Defensor Público do EstadoLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.

Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.

Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.

Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.

A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.

Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.

(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)


Considerando o contexto, está correto o que se afirma em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

A ironia é uma figura de linguagem onde se diz uma coisa, mas se quer expressar o oposto, geralmente com um tom de crítica ou humor. O sentido figurado é o uso de palavras ou expressões em um contexto não literal, criando uma imagem ou uma associação.

  • (A) Incorreta: "Caçoar" significa zombar ou ridicularizar, e no contexto de "caçoar de seus próprios temores", a palavra está sendo usada em seu sentido literal, sem uma comparação implícita que caracterizaria a metáfora.
  • (B) Incorreta: Embora "primitivos" e "selvagens" sejam termos que historicamente foram usados para se referir aos mesmos grupos de pessoas (povos indígenas ou sociedades tradicionais), o uso das aspas pelo autor em ambos os casos indica um distanciamento crítico em relação a esses rótulos. Eles não são sinônimos no sentido de que o autor os endosse como descrições neutras, mas sim os questiona. A armadilha aqui é que, em um sentido mais superficial, eles podem ser vistos como sinônimos para designar os mesmos grupos, mas a intenção do autor é mais complexa.
  • (C) Incorreta: O texto argumenta exatamente o contrário, que o pensamento mítico eleva-se ao plano do pensamento propriamente dito, ou seja, os mitos são uma forma de pensamento sério e complexo, não um oposto.
  • (D) Incorreta: Um hiperônimo é uma palavra de sentido mais amplo que inclui outras de sentido mais específico. "Homens" é a categoria mais ampla, e "selvagens" se refere a um grupo específico de homens. Portanto, "homens" é o hiperônimo de "selvagens", e não o contrário.
  • (E) Correta: O termo "primitivos" é usado entre aspas e, em seguida, o texto descreve esses povos com qualidades como "senso agudo do ridículo", capacidade de "desdramatizar" a vida e de ter "momentos de distensão". Essas características contradizem a conotação pejorativa de "primitivo" (que sugere simplicidade ou atraso). Ao usar o termo que a sociedade ocidental geralmente aplica a esses povos, mas atribuindo-lhes qualidades que subvertem o estereótipo negativo, o autor emprega a palavra com ironia, questionando implicitamente o rótulo.

Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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