Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2018 (nº 3)
Atenção: Leia o texto abaixo para responder às questões de número 1 a 12.
Tomando resolutamente a sério as narrativas dos "selvagens", a análise estrutural nos ensina, já há alguns anos, que tais
narrativas são precisamente muito sérias e que nelas se articula um sistema de interrogações que elevam o pensamento mítico ao
plano do pensamento propriamente dito. Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas*, de Claude Lévi-Strauss, que os mitos não*
falam para nada dizerem, eles adquirem a nossos olhos um novo prestígio; e, certamente, investi-los assim de tal gravidade não é
atribuir-lhes demasiada honra.Talvez, entretanto, o interesse muito recente que suscitam os mitos corra o risco de nos levar a tomá-los muito "a sério" desta
vez e, por assim dizer, a avaliar mal sua dimensão de pensamento. Se, em suma, deixássemos na sombra seus aspectos mais
acentuados, veríamos difundir-se uma espécie de mitomania esquecida de um traço todavia comum a muitos mitos, e não exclusivo
de sua gravidade: o seu humor.Não menos sérios para os que narram (os índios, por exemplo) do que para os que os recolhem ou leem, os mitos podem,
entretanto, desenvolver uma intensa impressão de cômico; eles desempenham às vezes a função explícita de divertir os ouvintes, de
desencadear sua hilaridade. Se estamos preocupados em preservar integralmente a verdade dos mitos, não devemos subestimar o
alcance real do riso que eles provocam e considerar que um mito pode ao mesmo tempo falar de coisas solenes e fazer rir aqueles
que o escutam.A vida cotidiana dos "primitivos", apesar de sua dureza, não se desenvolve sempre sob o signo do esforço ou da inquietude;
também eles sabem propiciar-se verdadeiros momentos de distensão, e seu senso agudo do ridículo os faz várias vezes caçoar de
seus próprios temores. Ora, não raro essas culturas confiam a seus mitos a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa
forma, sua existência.Essas narrativas, ora burlescas, ora libertinas, mas nem por isso desprovidas de alguma poesia, são bem conhecidas de todos
os membros da tribo, jovens e velhos; mas, quando eles têm vontade de rir realmente, pedem a algum velho versado no saber
tradicional para contá-las mais uma vez. O efeito nunca se desmente: os sorrisos do início passam a cacarejos mal reprimidos, o riso
explode em francas gargalhadas que acabam transformando-se em uivos de alegria.(Adaptado de: CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado. São Paulo, Ubu, 2017)
Mantendo-se a correção e, em linhas gerais, o sentido original, os termos sublinhados em Sabendo a partir de agora, graças às Mitológicas... (1º parágrafo) e ... desdramatizando, de certa forma, sua existência... (4º parágrafo) podem ser substituídos por:
- AUma vez que se sabe − de modo a desdramatizar (alternativa correta)
- BAinda que se saiba − a fim de desdramatizar
- CConquanto se sabe − porque se desdramatize
- DUma vez que se saiba − à medida que se desdramatize
- EMuito embora se sabe − a ponto de desdramatizar-se
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O conceito-chave aqui é a substituição de orações reduzidas de gerúndio por orações desenvolvidas, mantendo o sentido original e a correção gramatical. O gerúndio pode expressar diversas relações de sentido, como causa, tempo, modo, condição, finalidade ou consequência, e a escolha da conjunção ou locução conjuntiva adequada é fundamental.
- (A) Correta:
- "Sabendo" (gerúndio) no contexto "Sabendo a partir de agora... que os mitos não falam para nada dizerem, eles adquirem..." expressa uma causa ou condição/tempo para a aquisição de prestígio. "Uma vez que se sabe" (locução conjuntiva causal/temporal + indicativo) mantém esse sentido de um fato estabelecido que gera uma consequência.
- "desdramatizando" (gerúndio) no contexto "...a tarefa de distrair os homens, desdramatizando, de certa forma, sua existência" indica o modo como a distração ocorre ou a finalidade/consequência dessa distração. "de modo a desdramatizar" (locução prepositiva com valor de finalidade/modo + infinitivo) preserva esse sentido.
- (B) Incorreta: "Ainda que se saiba" introduz uma ideia de concessão, alterando o sentido de causa/condição do gerúndio "Sabendo".
- (C) Incorreta: "Conquanto se sabe" também expressa concessão, mudando o sentido. "Porque se desdramatize" introduz uma causa, mas o uso do subjuntivo "desdramatize" não se alinha com o sentido de modo/consequência do gerúndio original, que descreve um resultado factual da ação.
- (D) Incorreta: "Uma vez que se saiba" usa o subjuntivo, que introduziria uma hipótese ou desejo, e não um fato estabelecido como o gerúndio "Sabendo". "À medida que se desdramatize" expressa proporção, alterando o sentido de modo/finalidade do gerúndio "desdramatizando". A armadilha aqui é a semelhança da locução "uma vez que", mas a mudança de modo verbal (indicativo para subjuntivo) altera o sentido.
- (E) Incorreta: "Muito embora se sabe" expressa concessão, alterando o sentido de causa/condição do gerúndio "Sabendo".
Fonte: FCC DPE-RS 2018 Defensor Público do Estado (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.