Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 9)

FCC2017Comum AnalistaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Sem privacidade

Ainda é possível ter privacidade em meio a celulares, redes sociais e dispositivos outros das mais variadas conexões? Os mais velhos devem se lembrar do tempo em que era feio “ouvir conversa alheia”. Hoje é impossível transitar por qualquer espaço público sem recolher informações pessoais de todo mundo. Viajando de ônibus, por exemplo, acompanham-se em conversas ao celular brigas de casal, reclamações trabalhistas, queixas de pais a filhos e vice-versa, declarações românticas, acordo de negócios, informações técnicas, transmissão de dados e um sem-número de situações de que se é testemunha compulsória. Em clara e alta voz, lances da vida alheia se expõem aos nossos ouvidos, desfazendo-se por completo a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição.

Nas redes sociais, emoções destemperadas convivem com confissões perturbadoras, o humor de mau gosto disputa espaço com falácias políticas – tudo deixando ver que agora o sujeito só pode existir na medida em que proclama para o mundo inteiro seu gosto, sua opinião, seu juízo, sua reação emotiva. É como se todos se obrigassem a deixar bem claro para o resto da humanidade o sentido de sua existência, seu propósito no mundo. A discrição, a fala contida, o recolhimento íntimo parecem fazer parte de uma civilização extinta, de quando fazia sentido proteger os limites da própria individualidade.

Em meio a tais processos da irrestrita divulgação da personalidade, as reticências, a reflexão silenciosa e o olhar contemplativo surgem como sintomas problemáticos de alienação. Impõe-se um tipo de coletivismo no qual todos se obrigam a se falar, na esperança de que sejam ouvidos por todos. Nesse imenso ruído social, a reclamação por privacidade é recebida como o mais condenável egoísmo. Pretender identificar-se como um sujeito singular passou a soar como uma provocação escandalosa, em tempos de celebração do paradigma público da informação.


Diante do fenômeno caracterizado no texto como irrestrita divulgação da personalidade, seu autor posiciona-se

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O autor do texto não é neutro: ele compara, de forma crítica e nostálgica, o passado (quando havia privacidade e discrição) com o presente (onde todos se expõem compulsivamente). A palavra-chave é confronto entre duas épocas, e não apenas uma descrição ou adesão ao novo.

  • (A) Incorreta: O texto não é neutro; ele é claramente crítico à exposição atual e saudosista em relação à privacidade do passado, usando termos como "civilização extinta" e "ruído social".
  • (B) Incorreta: O autor não demonstra relutância nem adesão aos meios técnicos; ele os critica duramente, como quando fala em "obsessão" e "provocação escandalosa" para quem quer privacidade.
  • (C) Incorreta: O autor não diz que a privacidade do passado inspirou conexões produtivas; ele apenas lamenta sua perda, sem estabelecer esse vínculo de produtividade.
  • (D) Correta: O autor confronta explicitamente a "irrestrita divulgação da personalidade" (obsessão moderna pela conectividade) com a privacidade que era preservada no passado, como quando cita "a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição".
  • (E) Incorreta: Não há isenção ou avaliação de "perdas e ganhos"; o texto é um lamento unilateral pela perda da privacidade, sem elogiar ganhos da nova conectividade. A armadilha aqui é a palavra "isenção", que parece técnica, mas contradiz o tom crítico do autor.

Fonte: FCC DPE-RS 2017 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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