Questão nº 58

Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 58)

FCC2019RevisorLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*

No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.

Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.

Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.

(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)


... recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. (3º parágrafo)
O elemento sublinhado na frase acima possui a mesma função sintática que o sublinhado em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Conceito-chave: O termo sublinhado “os” é um objeto direto (complemento verbal sem preposição) do verbo “obrigariam”. Na frase, “os” = “eles” (os belos velhos), que sofrem a ação de serem obrigados. Para não errar, pergunte ao verbo: “obrigariam quem?” → “os” (a eles). Objeto direto é o alvo direto da ação.

  • (A) Incorreta: “nas entrelinhas” é um adjunto adverbial de lugar (indica onde ela sugere), não complemento verbal.
  • (B) Incorreta: “fundamental” é predicativo do sujeito (qualidade atribuída a “esta máxima”), não objeto.
  • (C) Incorreta: “desde a infância” é adjunto adverbial de tempo (indica quando), não complemento verbal.
  • (D) Incorreta: “que” é sujeito do verbo “inventou” (retoma “geração” e pratica a ação), não objeto direto.
  • (E) Correta: “um lugar especial” é objeto direto de “inventaram” (pergunta: “inventaram o quê?” → “um lugar especial”). Mesma função sintática de “os” na frase original: ambos completam o verbo sem preposição, recebendo a ação diretamente.

Armadilha da banca (distrator mais tentador – D): Muitos alunos confundem “que” com objeto direto porque ele vem logo após o verbo, mas aqui “que” é um pronome relativo que exerce função de sujeito (“a geração que inventou” = a geração inventou). A pegadinha é trocar a função sintática do pronome relativo pela do termo que ele substitui. Sempre reescreva a oração trocando “que” pelo antecedente para ver se ele pratica ou sofre a ação.

Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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