Questão nº 36
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 36)
− Quer esse menininho para o senhor? Pode levar.
Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?
− Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada…
Podia ser que fizesse aquilo para o bem do menino, um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.
Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento:
− Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele.
Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai.
− Praquê fui dar esse menino? − interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, no vermelho da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse.
A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.
E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia:
− Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. “Caso de menino”. 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 101-102)
O narrador manifesta incerteza acerca dos eventos narrados em:
- AMesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita. (4º parágrafo)
- BO pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber. (7º parágrafo) (alternativa correta)
- CMas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. (5º parágrafo)
- DChega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. (8º parágrafo)
- ECorreram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. (9º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Incerteza no texto é quando o narrador não afirma um fato com certeza, mas apresenta dúvida ou possibilidades — ele diz que algo pode ter acontecido de um jeito ou de outro. No caso, a dúvida está na mente do narrador sobre a intenção do pai, não sobre um fato objetivo.
- (A) Incorreta: Aqui o narrador faz uma afirmação geral (sobre a lei e o senso comum), sem dúvida alguma — é uma constatação, não uma incerteza.
- (B) Correta: O narrador usa a conjunção "ou" para apresentar duas hipóteses mutuamente exclusivas: o pai esqueceu o nome OU preferiu não saber. Ele não decide qual é a verdade — isso é incerteza explícita do narrador sobre o ocorrido.
- (C) Incorreta: O narrador relata as razões do pai como fatos apresentados por ele ("desempregado, abandonado pela mulher"), sem expressar dúvida sobre a veracidade — é a fala do personagem, não uma hesitação do narrador.
- (D) Incorreta: A frase descreve a dúvida do personagem (o pai não sabe como explicar), mas o narrador afirma com certeza que ele chega em casa e não sabe — a incerteza é do pai, não do narrador.
- (E) Incorreta: O narrador narra ações concretas ("correram", "foram", "perguntaram") sem nenhum sinal de dúvida ou hesitação — é uma sequência factual, não uma incerteza.
Armadilha da banca no distrator mais tentador (D): A banca troca a incerteza do personagem pela incerteza do narrador. O aluno lê "não sabe" e acha que é dúvida, mas a dúvida é do pai dentro da história — o narrador está apenas relatando esse estado mental com total segurança. A pegadinha é confundir quem está em dúvida (personagem) com quem narra com dúvida (narrador).
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.