Questão nº 57
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 57)
No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*
No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.
Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.
Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.
(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)
Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao envelhecimento, quero compreender... (1º parágrafo)
Mantendo as relações de sentido, o segmento sublinhado acima pode ser substituído por:
- AContudo, tenho
- BPorquanto tenho
- CDesde que tenho
- DConquanto tenha (alternativa correta)
- EDesde que tenha
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: A conjunção “Apesar de” indica concessão (uma ideia de “contraste” ou “quebra de expectativa”: algo acontece mesmo havendo um obstáculo). Para substituí-la sem mudar o sentido, precisamos de outra palavra ou expressão que também expresse concessão, como “embora”, “ainda que”, “conquanto” ou “mesmo que”. Cuidado: conjunções como “contudo” (adversativa), “porquanto” (explicativa/causal) e “desde que” (condicional) têm outros valores.
- (A) Incorreta: “Contudo” é uma conjunção adversativa (equivale a “mas”, “porém”), que liga orações coordenadas, não podendo substituir uma concessiva que inicia uma oração subordinada.
- (B) Incorreta: “Porquanto” é uma conjunção explicativa/causal (equivale a “porque”, “pois”), o que inverteria a relação de sentido: daria a ideia de causa, não de concessão.
- (C) Incorreta: “Desde que” é uma conjunção condicional (equivale a “se”, “caso”), indicando uma condição para algo acontecer, não um contraste.
- (D) Correta: “Conquanto” é uma conjunção concessiva (equivale a “embora”, “ainda que”), e exige o verbo no subjuntivo (“tenha”), exatamente como “Apesar de ter” (que também pede subjuntivo). Mantém o sentido de “mesmo tendo consciência dos problemas, quero compreender...”.
- (E) Incorreta: “Desde que tenha” é condicional (sentido de “se eu tiver consciência”), e não concessivo. A banca troca apenas o modo verbal para tentar confundir, mas o sentido continua errado.
Armadilha da banca na alternativa (E): Ela é a mais tentadora porque “desde que tenha” usa o subjuntivo, igual a “conquanto tenha”. Mas a banca explora a semântica: “desde que” é condição (“se”), não concessão (“embora”). O aluno que só olha a forma verbal cai na pegadinha; o que olha o sentido percebe que “desde que tenha consciência” mudaria completamente a frase (passaria a significar “se eu tiver consciência, quero compreender”).
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.