Questão nº 59
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 59)
No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*
No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.
Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.
Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.
(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)
Substituindo-se o segmento sublinhado pelo que se encontra entre parênteses, o emprego de crase está correto em:
- Arecusaram as regras que os obrigariam a se comportar (à agirem) como velhos.
- Bum projeto de vida que dê significado à existência (à nossas vidas)
- Cdão novos significados ao envelhecimento (à velhice) (alternativa correta)
- Dsão inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento (à questões relacionadas ao envelhecimento)
- Ese existe algum caminho para chegar à última fase da vida (à idades avançadas) de uma maneira mais plena
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: A crase é a fusão da preposição “a” (exigida por um verbo ou nome) com o artigo feminino “a” (ou com o pronome “aquele(s)”, “aquela(s)”). Para saber se há crase, troque a palavra feminina por uma masculina: se aparecer “ao”, há crase; se aparecer apenas “o”, não há. Além disso, nunca há crase antes de palavra no plural se o “a” estiver no singular, nem antes de pronome possessivo feminino no plural (como “nossas”) quando o “a” é só preposição.
(A) Incorreta: A armadilha aqui é a troca por “à agirem”: o verbo “agir” está no plural, e o “a” é apenas preposição exigida por “obrigariam” (obrigar a algo). Antes de verbo, não há artigo, logo não há crase; além disso, “à” + verbo no infinitivo plural é sempre errado.
(B) Incorreta: O distrator mais tentador: “à nossas vidas” parece correto, mas “nossas” é pronome possessivo plural. A preposição “a” (exigida por “dar significado a”) não se funde com artigo, pois não há artigo antes de “nossas”. O correto seria “a nossas vidas” (sem crase).
(C) Correta: “Dar significado a” exige preposição “a”; “velhice” é palavra feminina que aceita artigo “a”. A fusão “a + a” = “à”. Confirme trocando por palavra masculina: “dar significado ao envelhecimento” (aparece “ao”, então há crase).
(D) Incorreta: “Relacionados a” exige preposição “a”, mas “questões” está no plural e o “a” está no singular. Não há artigo definido “a” (singular) antes de plural; o correto seria “a questões” (sem crase). A banca tenta confundir com o “ao processo” original, que é masculino.
(E) Incorreta: “Chegar a” exige preposição, mas “idades avançadas” está no plural. O “a” singular não pode se fundir com artigo plural “as”; o correto seria “a idades avançadas” (sem crase). A pegadinha é o “à última fase” original, que é singular e feminino, mas a substituição muda o número.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.