Questão nº 34

Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 34)

FCC2019RevisorLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

Quer esse menininho para o senhor? Pode levar.

Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?

Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada…

Podia ser que fizesse aquilo para o bem do menino, um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.

Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento:

Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele.

Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai.

Praquê fui dar esse menino?interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, no vermelho da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse.

A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.

E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia:

Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser.

(ANDRADE, Carlos Drummond de. “Caso de menino”. 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 101-102)


O narrador recorre ao chamado discurso indireto livre no seguinte trecho:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Discurso indireto livre é quando o narrador mistura a fala ou o pensamento de um personagem com a sua própria voz, sem travessão, sem “disse que” e sem verbos de elocução (como “perguntou”, “respondeu”). É como se o pensamento do personagem “vazasse” direto na narração, em 3ª pessoa, mas com as palavras e emoções dele.

  • (A) Correta: O trecho “Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim” começa em discurso indireto (com “disse que”), mas a expressão “assim assim” é a fala típica da personagem, inserida na narração sem aspas ou travessão, caracterizando o discurso indireto livre.
  • (B) Incorreta: É pura narração, descrição de ações do personagem, sem qualquer marca de fala ou pensamento dele.
  • (C) Incorreta: É a voz do narrador comentando a reação das pessoas, sem misturar a fala ou o pensamento de um personagem específico.
  • (D) Incorreta: É discurso direto, marcado por travessão, reproduzindo exatamente o que a senhora falou.
  • (E) Incorreta: É discurso direto com verbo de elocução (“interroga-se ele”) e travessão, reproduzindo a pergunta do personagem; não há mistura com a voz do narrador.

Armadilha da banca na alternativa E: O aluno vê “interroga-se ele” e pensa que é indireto livre, mas o travessão e o verbo de elocução explícito (“interroga-se”) marcam o discurso direto — é a fala do personagem citada literalmente, não a fusão com o narrador.

Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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