Questão nº 56
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 56)
No livro A velhice*, Simone de Beauvoir não apresenta muitas alternativas para construir um olhar positivo sobre a última fase da vida. Ela tem como propósito fundamental denunciar a conspiração do silêncio e revelar como a sociedade trata os velhos: eles costumam ser desprezados e estigmatizados. Apesar de ter consciência de que são inúmeros os problemas relacionados ao processo de envelhecimento, quero compreender se existe algum caminho para chegar à última fase da vida de uma maneira mais plena e mais feliz. Encontro na própria Simone de Beauvoir a resposta para esta questão. Ela sugere, nas entrelinhas de* A velhice*, um possível caminho para a construção de uma “bela velhice”: o projeto de vida.*
No Brasil temos vários exemplos de “belos velhos”: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Marieta Severo, Rita Lee, entre outros. Duvido que alguém consiga enxergar neles, que já chegaram ou estão chegando aos 70 anos, um retrato negativo do envelhecimento. São típicos exemplos de pessoas chamadas “sem idade”.
Fazem parte de uma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!” ou qualquer outro rótulo que sempre contestaram. São de uma geração que transformou comportamentos e valores de homens e mulheres, que inventou diferentes arranjos amorosos e que legitimou novas formas de família. Esses “belos velhos” inventaram um lugar especial no mundo e se reinventam permanentemente. Continuam cantando, dançando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus. Não se aposentaram de si mesmos, recusaram as regras que os obrigariam a se comportar como velhos. Não se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos. Eles, como tantos outros “belos velhos”, rejeitam estereótipos e dão novos significados ao envelhecimento. Como diz a música de Arnaldo Antunes, “Somos o que somos: inclassificáveis”.
Desde muito cedo, somos livres para fazer escolhas. “A liberdade é o que você faz com o que a vida fez com você”. Esta máxima existencialista é fundamental para compreender a construção de um projeto de vida. O projeto de cada indivíduo pode ser traçado desde a infância, mas também pode ser construído ou modificado nas diferentes fases da vida, pois a ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha e da responsabilidade individual na construção de um projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias.
(Adaptado de: GOLDENBERG, Mirian. A bela velhice. Record. edição digital)
Duvido que alguém consiga enxergar neles [...] um retrato negativo do envelhecimento. (2º parágrafo)
O verbo flexionado nos mesmos tempo e modo do sublinhado acima está em:
- ANão se tornaram invisíveis, infelizes, deprimidos.
- Buma geração que não aceitará o imperativo “Seja um velho!”
- Cuma geração que transformou comportamentos e valores
- DA ênfase existencialista se coloca no exercício permanente da liberdade de escolha
- Eum projeto de vida que dê significado às nossas existências até os últimos dias. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave: A questão pede o verbo no mesmo tempo e modo do sublinhado. "Consiga" está no presente do subjuntivo (modo que expressa dúvida, desejo ou hipótese, geralmente após "que"). Para acertar, você precisa identificar qual outra frase também usa um verbo nesse mesmo modo e tempo, não apenas um verbo que pareça "futuro" ou "passado".
- (A) Incorreta: "tornaram" está no pretérito perfeito do indicativo (fato concluído), não no subjuntivo.
- (B) Incorreta: "aceitará" está no futuro do presente do indicativo (certeza de algo que virá), não expressa dúvida ou hipótese.
- (C) Incorreta: "transformou" está no pretérito perfeito do indicativo (ação passada concluída), mesmo erro da letra A.
- (D) Incorreta: "coloca" está no presente do indicativo (certeza, fato habitual), não no subjuntivo.
- (E) Correta: "dê" está no presente do subjuntivo, exatamente como "consiga". A armadilha aqui é que "dê" parece um verbo no presente do indicativo (como "ele dá"), mas a presença do "que" (que exige subjuntivo) e a ideia de desejo/hipótese ("que dê significado") confirmam o modo. A banca tenta te enganar com "dá" (indicativo) vs. "dê" (subjuntivo) — a diferença é o acento circunflexo, que muda o tempo e o modo.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.