Questão nº 43
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 43)
Os debates travados na Câmara e pela imprensa em torno da Lei do Ventre Livre fizeram da emancipação dos escravos uma questão nacional. O projeto do governo foi apresentado à Câmara em 12 de maio de 1871. Para alguns, o projeto era avançado demais, para outros, excessivamente tímido. Os defensores do projeto usaram argumentos morais e econômicos. Argumentavam que o trabalho livre era mais produtivo que o escravo. Diziam que a existência da escravidão era uma barreira à imigração, pois que os imigrantes recusavam-se a vir para um país de escravos. A emancipação abriria as portas à tão desejada imigração. Usando de argumentos morais, denunciavam os que, em nome do direito de propriedade, defendiam a escravidão e se opunham à aprovação do projeto. Não era legítimo invocar o direito de propriedade em se tratando de escravos. “Propriedade de escravos” − dizia Torres Homem, político famoso, homem de cor e de origens modestas que chegara ao Senado depois de brilhante carreira − “era uma monstruosa violação do direito natural.” “A maioria dos escravos brasileiros” − afirmava ele − “descendia de escravos introduzidos no país por um tráfico não só desumano como criminoso. Nada pois mais justo que se tomassem medidas para acabar com a escravidão.”
Em contrapartida, os mais arraigados defensores da escravidão consideravam o projeto uma intromissão indébita do governo na atividade privada. Argumentavam que o projeto ameaçava o direito de propriedade garantido pela Constituição. Segundo a prática, que datava do período colonial, o filho de mãe escrava pertencia ao senhor. Qualquer lei que viesse a conceder liberdade ao filho de escrava era, pois, um atentado à propriedade e, o que era pior, abria a porta a todas as formas de abusos contra esse direito. Acusavam o projeto de ameaçar de ruína os proprietários e de pôr em risco a economia nacional e a ordem pública. Diziam ainda que, emancipando-se os filhos e mantendo os pais no cativeiro, criar-se-iam nas senzalas duas classes de indivíduos, minando, dessa forma, a instituição escravista pois não tardaria muito para que os escravos questionassem a legitimidade de sua situação.
(Adaptado de: COSTA, Emília Viotti da. A Abolição. São Paulo: Editora Unesp, 2010, p. 49-52)
“Propriedade de escravos” − dizia Torres Homem [...] − “era uma monstruosa violação do direito natural.” (1º parágrafo)
Transposto para o discurso indireto, o trecho transcrito acima assume a seguinte redação:
- ATorres Homem dizia que propriedade de escravos é uma monstruosa violação do direito natural.
- BTorres Homem dizia: − Propriedade de escravos era uma monstruosa violação do direito natural.
- CTorres Homem dizia que propriedade de escravos seria uma monstruosa violação do direito natural.
- DTorres Homem dizia: − Propriedade de escravos é uma monstruosa violação do direito natural.
- ETorres Homem dizia que propriedade de escravos era uma monstruosa violação do direito natural. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave: No discurso indireto, você não repete as palavras exatas da pessoa; você as reconta com suas próprias palavras, adaptando os tempos verbais e eliminando travessões, aspas e verbos de elocução no meio da fala. A frase vira uma oração subordinada introduzida por “que” (ou “se”).
- (A) Incorreta: O verbo “é” (presente) não sofreu a devida correlação temporal com o verbo principal “dizia” (pretérito imperfeito); o correto seria “era”.
- (B) Incorreta: Mantém o travessão e a estrutura de discurso direto, apenas trocando o tempo verbal, o que não caracteriza a transposição pedida.
- (C) Incorreta: O uso de “seria” (futuro do pretérito) sugere uma condição ou incerteza que não existe no original; a fala de Torres Homem é uma afirmação categórica, então deve ficar no pretérito imperfeito (“era”).
- (D) Incorreta: Mantém o travessão e o verbo no presente (“é”), ou seja, continua sendo discurso direto, apenas com pontuação adaptada.
- (E) Correta: É a transposição perfeita: elimina travessões e aspas, usa o conectivo “que” e faz a correlação verbal correta (presente “é” → pretérito imperfeito “era”), mantendo o sentido original.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.