Questão nº 42
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 42)
Os debates travados na Câmara e pela imprensa em torno da Lei do Ventre Livre fizeram da emancipação dos escravos uma questão nacional. O projeto do governo foi apresentado à Câmara em 12 de maio de 1871. Para alguns, o projeto era avançado demais, para outros, excessivamente tímido. Os defensores do projeto usaram argumentos morais e econômicos. Argumentavam que o trabalho livre era mais produtivo que o escravo. Diziam que a existência da escravidão era uma barreira à imigração, pois que os imigrantes recusavam-se a vir para um país de escravos. A emancipação abriria as portas à tão desejada imigração. Usando de argumentos morais, denunciavam os que, em nome do direito de propriedade, defendiam a escravidão e se opunham à aprovação do projeto. Não era legítimo invocar o direito de propriedade em se tratando de escravos. “Propriedade de escravos” − dizia Torres Homem, político famoso, homem de cor e de origens modestas que chegara ao Senado depois de brilhante carreira − “era uma monstruosa violação do direito natural.” “A maioria dos escravos brasileiros” − afirmava ele − “descendia de escravos introduzidos no país por um tráfico não só desumano como criminoso. Nada pois mais justo que se tomassem medidas para acabar com a escravidão.”
Em contrapartida, os mais arraigados defensores da escravidão consideravam o projeto uma intromissão indébita do governo na atividade privada. Argumentavam que o projeto ameaçava o direito de propriedade garantido pela Constituição. Segundo a prática, que datava do período colonial, o filho de mãe escrava pertencia ao senhor. Qualquer lei que viesse a conceder liberdade ao filho de escrava era, pois, um atentado à propriedade e, o que era pior, abria a porta a todas as formas de abusos contra esse direito. Acusavam o projeto de ameaçar de ruína os proprietários e de pôr em risco a economia nacional e a ordem pública. Diziam ainda que, emancipando-se os filhos e mantendo os pais no cativeiro, criar-se-iam nas senzalas duas classes de indivíduos, minando, dessa forma, a instituição escravista pois não tardaria muito para que os escravos questionassem a legitimidade de sua situação.
(Adaptado de: COSTA, Emília Viotti da. A Abolição. São Paulo: Editora Unesp, 2010, p. 49-52)
A forma verbal que confere caráter hipotético ao enunciado está em:
- APara alguns, o projeto era avançado demais, para outros, excessivamente tímido. (1º parágrafo)
- BOs debates travados na Câmara e pela imprensa em torno da Lei do Ventre Livre fizeram da emancipação dos escravos uma questão nacional. (1º parágrafo)
- CA emancipação abriria as portas à tão desejada imigração. (1º parágrafo) (alternativa correta)
- DEm contrapartida, os mais arraigados defensores da escravidão consideravam o projeto uma intromissão indébita do governo... (2º parágrafo)
- EAcusavam o projeto de ameaçar de ruína os proprietários e de pôr em risco a economia nacional e a ordem pública. (2º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave é que o futuro do pretérito (como "abriria") é o tempo verbal usado para expressar uma ação que depende de uma condição, ou seja, algo que poderia acontecer, mas não é certo nem factual. Ele marca uma hipótese, uma possibilidade, e não um fato realizado. As outras formas verbais nas alternativas indicam ações reais, passadas ou habituais, sem esse caráter de incerteza.
- (A) Incorreta: O verbo "era" está no pretérito imperfeito do indicativo, que descreve uma característica ou estado de forma factual no passado, sem hipótese.
- (B) Incorreta: O verbo "fizeram" está no pretérito perfeito do indicativo, que narra uma ação concluída e real no passado.
- (C) Correta: O verbo "abriria" está no futuro do pretérito do indicativo, que expressa uma consequência hipotética ("a emancipação poderia abrir as portas"), dependente de uma condição implícita (a aprovação da lei). É exatamente o que a questão pede.
- (D) Incorreta: O verbo "consideravam" está no pretérito imperfeito do indicativo, indicando uma ação contínua e factual no passado (o que eles faziam), sem valor de hipótese.
- (E) Incorreta: O verbo "Acusavam" está no pretérito imperfeito do indicativo, descrevendo uma ação habitual e real no passado, sem qualquer noção de condição ou possibilidade.
A pegadinha da banca está na alternativa D, que usa o pretérito imperfeito ("consideravam"). Muitos alunos confundem esse tempo com o futuro do pretérito, pois ambos podem indicar ideias de "passado" ou "cortesia". Porém, o pretérito imperfeito descreve um fato contínuo no passado (algo que acontecia), enquanto o futuro do pretérito ("considerariam") é que expressaria uma opinião hipotética. A banca explora exatamente essa confusão entre os dois tempos verbais.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Revisor (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.