Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC CLDF 2018 (nº 7)
Atenção: Para responder às questões de números 7 a 10, baseie-se no texto abaixo, um excerto de ensaio do pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592).
Da indolência
O imperador Vespasiano, durante a enfermidade de que veio a morrer, não deixava de se ocupar dos negócios do Império; e, no seu próprio leito, tratava das questões mais importantes. Tendo-lhe o médico censurado essa atividade por nociva à saúde, disse ele: “um imperador precisa morrer em pé”. Eis, a meu ver, um belo pensamento.
Em idênticas circunstâncias, o imperador Adriano teve as mesmas palavras, as quais se deveriam lembrar aos reis para compreender que essa importante responsabilidade de dirigir os homens não é uma situação em que possam permanecer ociosos. E que nada pode desanimar mais o súdito, no seu afã de bem servir o soberano, do que saber que, enquanto corre riscos e se atarefa, seu senhor se entrega à indolência e cuida de seu prazer sem se interessar pelo bem-estar de seu povo.
(MONTAIGNE. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, Os Pensadores, 1972, p. 314)
É correto deduzir da leitura do texto que
Este texto de apoio vale também pra questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10.
- Asão distintas reações as de Montaigne diante das circunstâncias de vida e as das falas atribuídas aos dois imperadores citados.
- Ba ociosidade, tal como a considera pessoalmente o imperador Adriano, é avaliada de modo mais tolerante pelo imperador Vespasiano.
- Co bem-estar do povo deve estimular os soberanos a dedicarem-se ao trabalho para evitar a indolência e os prazeres de seus súditos.
- Despera o súdito servir ao soberano da melhor forma possível, devendo o soberano, por sua vez, afastar-se de qualquer forma de indolência. (alternativa correta)
- Ea admiração que Montaigne demonstra pelos imperadores citados resulta, sobretudo, da coragem e da soberba com que desdenham a morte.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Interpretar um texto significa entender a mensagem principal do autor e as ideias que ele defende, baseando-se apenas nas informações presentes no próprio texto, sem adicionar conhecimentos externos ou opiniões pessoais. É preciso identificar o que é dito explicitamente e o que pode ser deduzido logicamente.
- (A) Incorreta: Montaigne não tem reações "distintas" no sentido de opostas; ele elogia a fala de Vespasiano e usa as atitudes de ambos os imperadores para reforçar sua própria tese sobre a responsabilidade dos governantes.
- (B) Incorreta: O texto afirma que Adriano teve "as mesmas palavras" que Vespasiano, indicando que ambos tinham a mesma postura em relação à ociosidade, sem diferença de tolerância.
- (C) Incorreta: Esta alternativa inverte a lógica do texto. O texto diz que o soberano deve evitar a indolência dele para não desanimar o súdito, e não que o bem-estar do povo deve estimular o soberano a evitar a indolência dos súditos. A indolência e os prazeres mencionados são os do próprio soberano. (Armadilha da banca: usa termos do texto, mas inverte o sujeito da ação, confundindo a quem a indolência se refere.)
- (D) Correta: O texto afirma que "nada pode desanimar mais o súdito, no seu afã de bem servir o soberano, do que saber que [...] seu senhor se entrega à indolência". Isso deduz que o súdito espera servir bem e que o soberano deve, por sua vez, afastar-se da indolência para manter essa motivação.
- (E) Incorreta: A admiração de Montaigne se dá pelo "belo pensamento" de Vespasiano, que é a dedicação ao dever e ao trabalho até o fim ("morrer em pé"), e não pela soberba ou pelo desdém à morte em si. O foco é na responsabilidade do governante.
Fonte: FCC CLDF 2018 P01 - Procurador Legislativo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.