Questão nº 39
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 39)
Há oito anos Antonio Candido nos deixou — ou pareceu deixar. No entanto, há ausências que pesam como presenças. Sua crítica continua agindo. Candido não saiu: se transformou em método, em escuta, em atenção. Em compromisso com o que ainda falta realizar. Na sua escrita não havia medo do Brasil. Havia enfrentamento. O país das desigualdades, das injunções coloniais, da dor transformada em paisagem — esse país era objeto de estudo, mas também de lamento e de luta. A crítica não era neutralidade, era trincheira. E a literatura, longe de ser luxo, era direito: o direito de experimentar o mundo para além do necessário. O direito ao supérfluo que nos humaniza. Contudo, sua grandeza não vinha só daquilo que dizia, mas de como dizia. Candido via a literatura como um fenômeno enraizado nas condições concretas da vida, mas dotado de autonomia relativa e complexidade formal. Nenhum arroubo de vaidade, nenhuma fome de autoridade. Só o ensaio, como forma tateante de pensar. Uma crítica que girava em torno do objeto, que o rodeava até que ele se revelasse por suas fissuras. Nada de fórmulas prontas, nenhuma teoria imposta como camisa de força. Apenas a disposição de escutar os textos como quem escuta um povo. Sua dialética não era ostentação, mas prática silenciosa. Estava no gesto de alternar os polos — local e universal, ordem e desordem, cultura e barbarização — não para conciliá-los, mas para mostrar que é da fricção que nasce a forma. Pensar dialeticamente, para ele, era recusar as falsas harmonias. Era compreender que os contrários não se anulam: se atravessam, se transformam, se disputam. Sua crítica era uma coreografia do conflito — um modo de pensar o Brasil sem amputar suas tensões constitutivas. Uma dialética de baixa voz, mas de alta potência. Candido não nos deu respostas. Nos deu um modo de perguntar. E é esse modo — lúcido, sereno, apaixonado — que nos falta. Não como ausência melancólica, mas como horizonte possível.
Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente.
Em “Só o ensaio, como forma tateante de pensar” (décimo quinto período), o autor expõe um dos limites do trabalho crítico de Antonio Candido, que, ao submeter a perspectiva crítica ao objeto de análise, impossibilitava a adoção de uma fundamentação teórica coerente, o que o impedia de dar respostas a seu leitor.
Resposta comentada
O texto elogia o modo de Candido fazer crítica — o ensaio "tateante" é apresentado como virtude (escuta do objeto, recusa de fórmulas prontas), não como limite. O item troca elogio por defeito e inventa uma consequência ("impossibilitava fundamentação teórica coerente", "impedia de dar respostas") que o texto não sustenta — ao contrário, diz que Candido tinha "autonomia relativa e complexidade formal" e que "nos deu um modo de perguntar".
- Correta: Errado. O item distorce o sentido: onde o texto vê qualidade, ele lê "limite", e ainda atribui a isso uma "impossibilidade" que o texto nega.
O trecho que denuncia a torção é "um dos limites do trabalho crítico" — no texto, "Só o ensaio, como forma tateante de pensar" aparece como mérito (crítica que rodeia o objeto, sem "teoria imposta como camisa de força"), não como deficiência. Além disso, "impossibilitava a adoção de uma fundamentação teórica coerente" contradiz a passagem sobre "autonomia relativa e complexidade formal" e sobre a dialética como "prática silenciosa".
Como ficaria certo: Em "Só o ensaio, como forma tateante de pensar", o autor destaca uma virtude do trabalho crítico de Antonio Candido, que, ao escutar o objeto sem impor teorias como camisa de força, produzia uma crítica dialética coerente e aberta, capaz de formular perguntas em vez de respostas prontas.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.