Questão nº 37
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 37)
Há oito anos Antonio Candido nos deixou — ou pareceu deixar. No entanto, há ausências que pesam como presenças. Sua crítica continua agindo. Candido não saiu: se transformou em método, em escuta, em atenção. Em compromisso com o que ainda falta realizar. Na sua escrita não havia medo do Brasil. Havia enfrentamento. O país das desigualdades, das injunções coloniais, da dor transformada em paisagem — esse país era objeto de estudo, mas também de lamento e de luta. A crítica não era neutralidade, era trincheira. E a literatura, longe de ser luxo, era direito: o direito de experimentar o mundo para além do necessário. O direito ao supérfluo que nos humaniza. Contudo, sua grandeza não vinha só daquilo que dizia, mas de como dizia. Candido via a literatura como um fenômeno enraizado nas condições concretas da vida, mas dotado de autonomia relativa e complexidade formal. Nenhum arroubo de vaidade, nenhuma fome de autoridade. Só o ensaio, como forma tateante de pensar. Uma crítica que girava em torno do objeto, que o rodeava até que ele se revelasse por suas fissuras. Nada de fórmulas prontas, nenhuma teoria imposta como camisa de força. Apenas a disposição de escutar os textos como quem escuta um povo. Sua dialética não era ostentação, mas prática silenciosa. Estava no gesto de alternar os polos — local e universal, ordem e desordem, cultura e barbarização — não para conciliá-los, mas para mostrar que é da fricção que nasce a forma. Pensar dialeticamente, para ele, era recusar as falsas harmonias. Era compreender que os contrários não se anulam: se atravessam, se transformam, se disputam. Sua crítica era uma coreografia do conflito — um modo de pensar o Brasil sem amputar suas tensões constitutivas. Uma dialética de baixa voz, mas de alta potência. Candido não nos deu respostas. Nos deu um modo de perguntar. E é esse modo — lúcido, sereno, apaixonado — que nos falta. Não como ausência melancólica, mas como horizonte possível.
Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente.
Ao definir a crítica de Antonio Candido como “enfrentamento”, “trincheira” e “coreografia do conflito”, o autor evidencia o caráter engajado e sociológico desse trabalho crítico, em função da opção de Candido por dar centralidade ao conteúdo em detrimento da forma literária.
Resposta comentada
A crítica de Candido une forma (como o texto é construído) e conteúdo (o que ele diz) — ele nunca sacrifica uma pela outra. O texto diz que sua grandeza vinha "não só daquilo que dizia, mas de como dizia", e que a literatura era vista como fenômeno com autonomia relativa e complexidade formal.
- Correta: Errado. O item torce o texto ao afirmar que Candido dava "centralidade ao conteúdo em detrimento da forma literária" — o texto diz exatamente o contrário.
O trecho que denuncia a pegadinha é: "mas de como dizia" e "dotado de autonomia relativa e complexidade formal". Ou seja, a forma tem peso equivalente ao conteúdo na crítica candideana; não há hierarquia em que o conteúdo vença. A banca trocou "forma e conteúdo juntos" por "conteúdo acima da forma".
Como ficaria certo: Ao definir a crítica de Antonio Candido como "enfrentamento", "trincheira" e "coreografia do conflito", o autor evidencia o caráter engajado e sociológico desse trabalho crítico, sem abrir mão da atenção à forma literária, já que Candido via a literatura como fenômeno com autonomia relativa e complexidade formal.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.