Questão nº 31
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 31)
No Itamaraty, em dependência do Serviço de Informações, opera autônoma e praticamente sem cessar o telex, espécie de bem-mandada máquina, que tiquetaqueia recebendo notícias diretas radiotelegráficas. Naquela tarde de 22 de novembro de 1963, passando por ali meu amigo o Ministro Portella, perguntou-lhe um subalterno de olhos espantados: que queria dizer “shot” em inglês? A tremenda coisa, no instante, anunciava-se já completa, ainda quente, frases e palavras golpeadas na longa tira de papel que ia adiante desenrolando-se. “Presidente Kennedy...” Susto e consternação confundiam depressa a cidade, os países, todo-o-mundo lívido. Antes que tudo, o assombro. Era uma das vezes em que, enorme, o que devia não ser possível sucede, o desproporcionado. Lembro-me que me volveram à mente outras sortes e mortes. E — por que então — a de Gandhi. Tende-se a supor que esses seres extraordinários, em fino evoluídos, almas altas, estariam além do alcanço de grosseiros desfechos. Quando, ao que parece, são, virtualmente, os que de preferência os chamam; talvez por fato de polarização, o positivo provocando sempre o negativo. De exformes zonas inferiores, onde se atrasa o Mal, medonhantes braços estariam armando a atingir o luminoso. Apenas os detêm permanentes defesas de ordem sutil; mas que, se só um momento cessam de prevalecer, permitem o inominável. Para nós a Providência é incompreendida computadora.
Com base no texto precedente, julgue os itens subsequentes.
A contraposição estabelecida no texto entre “espécie de bem-mandada máquina”, no primeiro período, e “a Providência é incompreendida computadora”, no último período, revela uma contradição em torno da autonomia dos seres humanos.
Resposta comentada
O texto constrói um paradoxo: de um lado, a máquina (telex) é "bem-mandada" e "autônoma", sugerindo controle técnico e previsibilidade humana; de outro, o desfecho trágico (morte de Kennedy, evocação de Gandhi) mostra que forças superiores — a "Providência incompreendida computadora" — operam de modo opaco, fora do domínio humano. Isso revela uma contradição: quanto mais o homem se vê autônomo via tecnologia, mais se percebe à mercê de um destino que não controla.
- Correta: Certo. A oposição entre a máquina autônoma e a Providência-computadora expõe justamente o conflito entre a suposta autonomia humana e a impotência diante do inominável.
Fica de olho: a banca costuma trocar "contradição em torno da autonomia dos seres humanos" por algo como "elogio à autonomia técnica" ou "defesa do determinismo tecnológico" — aí o item vira Errado, porque o texto não celebra nem defende, ele tensiona os dois polos.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.