Questão nº 23
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 23)
(Cannes – 31 – maio – 1952)
Em abril de 1952 embrenhei-me numa aventura singular: fui a Moscou e a outros lugares medonhos situados além da cortina de ferro exposta com vigor pela civilização cristã e ocidental. Nunca imaginei que tal coisa pudesse acontecer a um homem sedentário, resignado ao ônibus e ao bonde quando o movimento era indispensável. Absurda semelhante viagem — e quando me trataram dela, quase me zanguei. Faltavam-me recursos para realizá-la; a experiência me afirmava que não me deixariam sair do Brasil; e, para falar com franqueza, não me sentia disposto a mexer-me, abandonar a toca onde vivo. Recusei, pois, o convite, divagação insensata, julguei. Tudo aquilo era impossível. Mas uma série de acasos transformou a impossibilidade em dificuldade; esta se aplainou sem que eu tivesse feito o mínimo esforço, e achei-me em condições de percorrer terras estranhas, as malas arrumadas, os papéis em ordem, com todos os selos e carimbos. Depois de andar por cima de vários estados do meu país, tinha-me resolvido a não entrar em aviões: a morte horrível de um amigo levara-me a odiar esses aparelhos assassinos. Meses atrás, para ir a um congresso em Porto Alegre, rolara nove dias em automóvel. Tenho horror às casas desconhecidas. E falo pessimamente duas línguas estrangeiras. Estava decidido a não viajar; e, em consequência da firme decisão, encontrei-me um dia metido na encrenca voadora, o cinto amarrado, os cigarros inúteis, em obediência ao letreiro exigente aceso à porta da cabina.
A respeito do texto precedente e de seus aspectos linguísticos e literários, julgue os itens a seguir.
No último período do texto, o emprego da expressão “em consequência” evidencia falta de coerência interna, que torna contraditório o enunciado e prejudica o sentido a ser comunicado.
Resposta comentada
A coerência textual é a lógica que amarra as ideias do texto: uma causa deve levar a uma consequência compatível com o que foi dito antes. Conectivos como "em consequência" marcam justamente essa relação de causa e efeito — e, aqui, a "consequência" é propositalmente irônica, não contraditória.
- Correta: Errado. A expressão "em consequência" está bem empregada: ela marca uma consequência irônica (efeito contrário ao esperado), recurso estilístico que dá sentido ao texto, não incoerência.
O item erra ao afirmar que há "falta de coerência interna" e que o enunciado fica "contraditório". O narrador diz que estava decidido a não viajar e, logo depois, aparece metido na encrenca voadora — mas esse contraste é intencional: o "em consequência" expressa o paradoxo cômico de que a firme decisão de não viajar acabou resultando exatamente na viagem. É ironia, não incoerência.
Como ficaria certo: No último período, o emprego de "em consequência" reforça a ironia do narrador — a decisão firme de não viajar acaba levando-o justamente a viajar —, o que preserva a coerência e o sentido do texto.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.