Questão nº 23
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE Câmara dos Deputados 2025 - NS (nº 23)
Em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, foi promulgada a atual Constituição Federal, a primeira a tratar da questão racial e a que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível. Naquele ano de memória e avanço civilizatório, foi feita uma pequena pesquisa sobre racismo. Seus resultados mostravam um cenário contraditório: ao mesmo tempo em que 97% dos entrevistados afirmavam não ter preconceito racial, 98% dos entrevistados diziam conhecer pessoas racistas e ter presenciado situações de discriminação racial. A melhor descrição da situação foi feita anos depois pela historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz: “A conclusão informal é de que todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados.”
Hoje, o debate sobre o racismo cresceu. As cotas raciais são um sucesso social e acadêmico comprovado. Tendem a ser cada vez menos numerosos os que acreditam na democracia racial e cada vez maior o número dos que sabem que o racismo deve ser extirpado.
Entretanto, a tendência de reconhecer mais o racismo não se repete em relação ao machismo. Todos reconhecem que há discriminação contra pretos e pardos, mas não contra as mulheres; todos reconhecem que há racismo, mas não reconhecem que há machismo — embora os mais jovens não se revelem machistas. Todas as gerações negam a discriminação contra as mulheres, apesar de a geração dos que nasceram no novo milênio ser a que menos percebe a discriminação de gênero, tanto mulheres quanto homens. No Brasil de hoje, há uma regra social implícita, segundo a qual ninguém pode deixar de reconhecer o racismo, mas a sociedade não reconhece a discriminação contra a mulher como relevante.
Julgue os próximos itens, relativos ao texto precedente.
Depreende-se da leitura do texto que a geração dos nascidos no novo milênio é menos afetada pela discriminação de gênero que as demais.
Resposta comentada
O texto diz que os mais jovens percebem menos a discriminação de gênero — isso é diferente de sofrer menos essa discriminação. Percepção (o que a pessoa enxerga/reconhece) não é o mesmo que incidência (o quanto ela é atingida).
- Correta: Errado. O item troca percepção por efeito real: o texto fala de quem "menos percebe a discriminação de gênero", não de quem é menos afetado por ela.
O trecho que denuncia a pegadinha é: "a geração dos que nasceram no novo milênio ser a que menos percebe a discriminação de gênero". A banca torceu "percebe" para "é afetada".
Como ficaria certo: Depreende-se do texto que a geração dos nascidos no novo milênio é a que menos percebe a discriminação de gênero.
Fonte: CEBRASPE Câmara dos Deputados 2025 - NS Conhecimentos Comuns. Reproduzida para fins de estudo.