Questão nº 22
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE Câmara dos Deputados 2025 - NS (nº 22)
Em 1988, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, foi promulgada a atual Constituição Federal, a primeira a tratar da questão racial e a que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível. Naquele ano de memória e avanço civilizatório, foi feita uma pequena pesquisa sobre racismo. Seus resultados mostravam um cenário contraditório: ao mesmo tempo em que 97% dos entrevistados afirmavam não ter preconceito racial, 98% dos entrevistados diziam conhecer pessoas racistas e ter presenciado situações de discriminação racial. A melhor descrição da situação foi feita anos depois pela historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz: “A conclusão informal é de que todo brasileiro parece se sentir como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados.”
Hoje, o debate sobre o racismo cresceu. As cotas raciais são um sucesso social e acadêmico comprovado. Tendem a ser cada vez menos numerosos os que acreditam na democracia racial e cada vez maior o número dos que sabem que o racismo deve ser extirpado.
Entretanto, a tendência de reconhecer mais o racismo não se repete em relação ao machismo. Todos reconhecem que há discriminação contra pretos e pardos, mas não contra as mulheres; todos reconhecem que há racismo, mas não reconhecem que há machismo — embora os mais jovens não se revelem machistas. Todas as gerações negam a discriminação contra as mulheres, apesar de a geração dos que nasceram no novo milênio ser a que menos percebe a discriminação de gênero, tanto mulheres quanto homens. No Brasil de hoje, há uma regra social implícita, segundo a qual ninguém pode deixar de reconhecer o racismo, mas a sociedade não reconhece a discriminação contra a mulher como relevante.
Julgue os próximos itens, relativos ao texto precedente.
Infere-se dos resultados da pesquisa realizada em 1988 sobre racismo que os entrevistados implicitamente negavam fazer parte do coletivo a que pertenciam.
Resposta comentada
Inferência é concluir algo que não está escrito, mas que decorre logicamente do texto. A pesquisa de 1988 mostra um paradoxo: 97% dizem "não tenho preconceito", mas 98% conhecem racistas e presenciaram discriminação. Se quase todos veem racismo em volta, mas ninguém se inclui entre os racistas, cada entrevistado se enxerga fora do grupo dos racistas — ou seja, nega implicitamente pertencer ao coletivo que ele mesmo denuncia. É exatamente a imagem da "ilha de democracia racial cercada de racistas por todos os lados".
- Correta: Certo. Os 97% que se dizem sem preconceito, somados aos 98% que apontam racistas nos outros, revelam que cada entrevistado se exclui do grupo dos racistas — nega fazer parte do coletivo que ele próprio identifica.
Fica de olho: a banca costuma trocar "implicitamente" por "explicitamente" ou inverter o sentido para "os entrevistados assumiam fazer parte do coletivo de racistas" — aí o item vira Errado, porque o texto diz justamente o contrário: eles se isentam.
Fonte: CEBRASPE Câmara dos Deputados 2025 - NS Conhecimentos Comuns. Reproduzida para fins de estudo.