Questão nº 14

Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAL 2018 (nº 14)

FGV2018Analista Judiciário - Área JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

TEXTO – Sem tolerância com o preconceito

Átila Alexandre Nunes, O Globo, 23/01/2018 (adaptado)

Diante do número de casos de preconceito explícito e agressões, somos levados ao questionamento se nossa sociedade corre o risco de estar tornando-se irracionalmente intolerante. Ou, quem sabe, intolerantemente irracional. Intolerância é a palavra do momento. Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas.

O tamanho desse problema rompeu fronteiras e torna-se uma praga mundial. Líderes políticos, em conluio com líderes religiosos, ignoram os conceitos de moral, ética, direitos, deveres e justiça. As redes sociais assumiram um papel cruel nesse sistema. Se deveriam servir para mostrar indignação, mostram, muitas vezes, um preconceito medieval.

No campo da religiosidade, o fanatismo se mostra cada dia mais presente no Rio de Janeiro. No último ano, foram registradas dezenas de casos de intolerância religiosa por meio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Um número ainda subnotificado, pois, muitas ocorrências que deveriam ser registradas como “intolerância religiosa” são consideradas brigas de vizinhos.

A subnotificação desses casos é um dos maiores entraves na luta contra a intolerância religiosa. O registro incorreto e a descrença de grande parte da população na punição a esse tipo de crime colaboram para maquiar o retrato dos ataques promovidos pelo fanatismo religioso em nossa sociedade. A perseguição às minorias religiosas está cada vez mais organizada com braços políticos e até de milícias armadas como o tráfico de drogas.

No último ano recebemos denúncias de ataques contra religiões de matriz africana praticados pelo tráfico de drogas, que não só destruíam terreiros, como também proibiam a realização de cultos em determinada região, segundo o desejo do chefe da facção local.

Não podemos regredir a um estado confessional. A luta de agora pela liberdade religiosa é um dever de todos para garantir o cumprimento da Constituição Federal. Quando uma pessoa de fé é humilhada, agredida ou discriminada devido à sua crença, ela tem seus direitos humanos e constitucionais violados. Hoje, fala-se muito sobre intolerância religiosa, mas, muito mais do que sermos tolerantes, precisamos aprender a respeitar a individualidade e as crenças de cada um.

Até porque, nessa toada, a intolerância irracional ganha terreno, e nós vamos ficando cada vez mais irracionalmente intolerantes com aquilo que não deveríamos ser. Numa sociedade onde o preconceito se mostra cada dia mais presente, a única saída é a incorporação da cultura do respeito. Preconceito não se tolera, se combate.


Há uma série de vocábulos cuja significação decorre da situação de produção do texto e não de seu sentido contextual; são as chamadas palavras de sentido dêitico.
O segmento abaixo em que a palavra sublinhada tem seu valor semântico explicado no texto é:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Dêixis são palavras que só fazem sentido se você souber quem fala, com quem fala, quando e onde (ex.: “eu”, “aqui”, “agora”). A banca quer que você perceba quando o texto explica o referente da palavra dêitica, em vez de deixá-lo dependente do contexto externo.

  • (A) Incorreta: “do momento” é dêitico temporal (refere-se ao tempo da fala), mas o texto não define qual é esse momento; depende do leitor saber a data da publicação.
  • (B) Incorreta: “No último ano” é dêitico temporal, mas o texto não diz qual ano é esse; depende do contexto de produção (2018).
  • (C) Incorreta: “de agora” é dêitico temporal, mas o texto não explica o que é “agora”; depende do momento da enunciação.
  • (D) Incorreta: “Hoje” é dêitico temporal clássico, mas o texto não define qual dia é “hoje”; depende da data de publicação.
  • (E) Correta: “cada dia” é uma expressão dêitica de frequência, e o texto explica seu valor na sequência: “o preconceito se mostra cada dia mais presente” — o sentido é “progressivamente, com o passar dos dias”, e essa progressão é explicitada pelo contexto (“mais presente”), tornando o referente semântico recuperável no próprio texto, sem depender da situação externa.

Fonte: FGV TJAL 2018 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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