Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAL 2018 (nº 8)
TEXTO – Sem tolerância com o preconceito
Átila Alexandre Nunes, O Globo, 23/01/2018 (adaptado)
Diante do número de casos de preconceito explícito e agressões, somos levados ao questionamento se nossa sociedade corre o risco de estar tornando-se irracionalmente intolerante. Ou, quem sabe, intolerantemente irracional. Intolerância é a palavra do momento. Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas.
O tamanho desse problema rompeu fronteiras e torna-se uma praga mundial. Líderes políticos, em conluio com líderes religiosos, ignoram os conceitos de moral, ética, direitos, deveres e justiça. As redes sociais assumiram um papel cruel nesse sistema. Se deveriam servir para mostrar indignação, mostram, muitas vezes, um preconceito medieval.
No campo da religiosidade, o fanatismo se mostra cada dia mais presente no Rio de Janeiro. No último ano, foram registradas dezenas de casos de intolerância religiosa por meio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Um número ainda subnotificado, pois, muitas ocorrências que deveriam ser registradas como “intolerância religiosa” são consideradas brigas de vizinhos.
A subnotificação desses casos é um dos maiores entraves na luta contra a intolerância religiosa. O registro incorreto e a descrença de grande parte da população na punição a esse tipo de crime colaboram para maquiar o retrato dos ataques promovidos pelo fanatismo religioso em nossa sociedade. A perseguição às minorias religiosas está cada vez mais organizada com braços políticos e até de milícias armadas como o tráfico de drogas.
No último ano recebemos denúncias de ataques contra religiões de matriz africana praticados pelo tráfico de drogas, que não só destruíam terreiros, como também proibiam a realização de cultos em determinada região, segundo o desejo do chefe da facção local.
Não podemos regredir a um estado confessional. A luta de agora pela liberdade religiosa é um dever de todos para garantir o cumprimento da Constituição Federal. Quando uma pessoa de fé é humilhada, agredida ou discriminada devido à sua crença, ela tem seus direitos humanos e constitucionais violados. Hoje, fala-se muito sobre intolerância religiosa, mas, muito mais do que sermos tolerantes, precisamos aprender a respeitar a individualidade e as crenças de cada um.
Até porque, nessa toada, a intolerância irracional ganha terreno, e nós vamos ficando cada vez mais irracionalmente intolerantes com aquilo que não deveríamos ser. Numa sociedade onde o preconceito se mostra cada dia mais presente, a única saída é a incorporação da cultura do respeito. Preconceito não se tolera, se combate.
Os segmentos abaixo estão ligados semanticamente; o segmento em que a troca de posição dos termos sublinhados NÃO é adequada ao contexto é:
- A“O tamanho desse problema rompeu fronteiras e torna-se uma praga mundial”; (alternativa correta)
- B“...ignoram os conceitos de moral, ética, direitos, deveres e justiça”;
- C“...cada vez mais organizada com braços políticos e até de milícias armadas”;
- D“Líderes políticos, em conluio com líderes religiosos...”;
- E“Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas”.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: A questão testa se você percebe a ordem lógica ou cronológica dos fatos. Em uma sequência de ações, a troca de posição só é adequada se não alterar o sentido ou a progressão natural dos eventos. Se a troca inverter causa e consequência ou uma ordem temporal, a frase fica ilógica.
- (A) Correta: A troca é inadequada porque cria uma inversão lógica e temporal: primeiro o problema “rompeu fronteiras” (ação de espalhar) e só depois “torna-se uma praga mundial” (consequência do espalhamento). Inverter para “torna-se uma praga mundial e rompeu fronteiras” coloca o efeito antes da causa, quebrando a progressão natural.
- (B) Incorreta: A troca entre “moral, ética, direitos, deveres” e “justiça” é adequada, pois todos são itens de uma lista enumerativa (enumeração de conceitos), sem hierarquia ou ordem obrigatória entre eles.
- (C) Incorreta: A troca entre “braços políticos” e “milícias armadas” é adequada, pois ambos são exemplos de estruturas de poder que se somam (“e até”), funcionando como uma gradação de intensidade, mas sem relação de causa e consequência que impeça a inversão.
- (D) Incorreta: A troca entre “Líderes políticos” e “líderes religiosos” é adequada, pois são dois sujeitos coordenados que agem em conjunto (“em conluio”), sem hierarquia ou ordem de importância que defina qual deve vir primeiro.
- (E) Incorreta: A troca entre “à orientação sexual” e “às convicções políticas” é adequada, pois são exemplos paralelos de formas de preconceito, ligados por “da... à...” (estrutura correlativa), sem que a ordem altere o sentido.
Armadilha da banca: O distrator mais tentador é a letra E, pois parece que a ordem dos exemplos é fixa. Mas a banca quer que você perceba que a única troca que quebra a lógica de causa e efeito é a da letra A, onde o verbo “rompeu” (ação) deve vir antes do resultado “torna-se” (estado).
Fonte: FGV TJAL 2018 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.