Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FGV TJAL 2018 (nº 13)
TEXTO – Sem tolerância com o preconceito
Átila Alexandre Nunes, O Globo, 23/01/2018 (adaptado)
Diante do número de casos de preconceito explícito e agressões, somos levados ao questionamento se nossa sociedade corre o risco de estar tornando-se irracionalmente intolerante. Ou, quem sabe, intolerantemente irracional. Intolerância é a palavra do momento. Da religião à orientação sexual, da cor da pele às convicções políticas.
O tamanho desse problema rompeu fronteiras e torna-se uma praga mundial. Líderes políticos, em conluio com líderes religiosos, ignoram os conceitos de moral, ética, direitos, deveres e justiça. As redes sociais assumiram um papel cruel nesse sistema. Se deveriam servir para mostrar indignação, mostram, muitas vezes, um preconceito medieval.
No campo da religiosidade, o fanatismo se mostra cada dia mais presente no Rio de Janeiro. No último ano, foram registradas dezenas de casos de intolerância religiosa por meio da Secretaria de Estado de Direitos Humanos. Um número ainda subnotificado, pois, muitas ocorrências que deveriam ser registradas como “intolerância religiosa” são consideradas brigas de vizinhos.
A subnotificação desses casos é um dos maiores entraves na luta contra a intolerância religiosa. O registro incorreto e a descrença de grande parte da população na punição a esse tipo de crime colaboram para maquiar o retrato dos ataques promovidos pelo fanatismo religioso em nossa sociedade. A perseguição às minorias religiosas está cada vez mais organizada com braços políticos e até de milícias armadas como o tráfico de drogas.
No último ano recebemos denúncias de ataques contra religiões de matriz africana praticados pelo tráfico de drogas, que não só destruíam terreiros, como também proibiam a realização de cultos em determinada região, segundo o desejo do chefe da facção local.
Não podemos regredir a um estado confessional. A luta de agora pela liberdade religiosa é um dever de todos para garantir o cumprimento da Constituição Federal. Quando uma pessoa de fé é humilhada, agredida ou discriminada devido à sua crença, ela tem seus direitos humanos e constitucionais violados. Hoje, fala-se muito sobre intolerância religiosa, mas, muito mais do que sermos tolerantes, precisamos aprender a respeitar a individualidade e as crenças de cada um.
Até porque, nessa toada, a intolerância irracional ganha terreno, e nós vamos ficando cada vez mais irracionalmente intolerantes com aquilo que não deveríamos ser. Numa sociedade onde o preconceito se mostra cada dia mais presente, a única saída é a incorporação da cultura do respeito. Preconceito não se tolera, se combate.
Ainda que, no título, o texto fale de “preconceito”, no corpo do artigo ocorre:
- Aa focalização de preconceito religioso entre grupos de fé distinta;
- Buma discussão ampla sobre vários tipos de preconceito;
- Cuma particularização do preconceito voltado para as religiões de matriz africana; (alternativa correta)
- Duma apreciação sociológica do preconceito, sem particularizações;
- Eum debate sobre o preconceito religioso em geral.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: O texto começa falando de intolerância de forma ampla, mas depois estreita o foco para um caso específico: a perseguição a religiões de matriz africana (como umbanda e candomblé). A banca quer que você perceba essa particularização — o autor não fica no genérico, ele desce a um exemplo concreto.
- (A) Incorreta: O texto não foca em conflitos entre grupos de fé distinta (ex.: católicos vs. evangélicos), mas sim na perseguição a um grupo específico (religiões de matriz africana) por outros agentes (tráfico, fanáticos).
- (B) Incorreta: Embora o 1º parágrafo cite vários tipos (religião, orientação sexual, cor da pele), o desenvolvimento do artigo abandona essa amplitude e se concentra apenas na intolerância religiosa, especificamente contra matrizes africanas.
- (C) Correta: O gabarito oficial. O autor cita dados de intolerância religiosa no Rio, mas logo particulariza ao mencionar ataques a terreiros e proibição de cultos por facções criminosas — o que restringe o tema às religiões de matriz africana.
- (D) Incorreta: Não é uma análise sociológica genérica; há dados concretos (Secretaria de Direitos Humanos) e um recorte específico (matriz africana), o que elimina a ideia de "sem particularizações".
- (E) Incorreta: O texto não debate "preconceito religioso em geral" (ex.: contra evangélicos, católicos, judeus); ele fecha o recorte nas religiões de matriz africana, como mostram os exemplos de destruição de terreiros.
Armadilha da banca: A letra B é a pegadinha clássica — o aluno lê o 1º parágrafo, vê a lista de preconceitos (religião, orientação sexual, cor da pele) e marca "discussão ampla". Mas o autor usa isso só como gancho inicial; o corpo do texto (parágrafos 3, 4 e 5) é todo dedicado a um caso único. A dica para não cair: sublinhe os exemplos dados — se todos apontam para um mesmo alvo, não é amplo, é particular.
Fonte: FGV TJAL 2018 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.