Questão nº 40
Questão de Antropologia · FGV TJ-MS 2024 (nº 40)
O antropólogo brasileiro Sergio Baptista, em seu texto "Repensando objetos, arte e cultura material”, publicado em 2011, afirmou:
“(…) A arte e a cultura material nos coletivos indígenas das terras baixas da América do Sul têm sido trabalhadas ultimamente desde as lógicas nativas, com a tendência de refutar a noção de estética como categoria transcultural, utilizando-se das categorias êmicas presentes nessa arte e em alguns desses objetos, singularmente concebidos como presentificações de relações estabelecidas com alteridades extra-humanas e suas potências, especialmente divindades e demais habitantes do cosmos (animais, plantas, minerais, etc.), dotados de atributos humanos, ponto de vista, subjetividade e intencionalidade. Nesse sentido, tais ‘objetos’ são sujeitos, possuem agência e não são meras representações de protótipos: são eles próprios. Essa orientação não pretende deslegitimar as análises que enfatizam as manifestações artísticas e os sistemas de objetos como sistemas de representações, indicadores de processos identitários, de afirmação de sujeitos de direitos, de discursos variados e de importantes mensagens culturais neles contidos.”
A perspectiva teórica que tem contribuído para ressituar o debate sobre objetos, coisas e materialidades na antropologia contemporânea é a:
- Aantropologia das representações;
- Bantropologia visual;
- Cvirada material; (alternativa correta)
- Dantropologia das infraestruturas;
- Eantropologia das mercadorias.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A virada material na antropologia é uma mudança de perspectiva que passa a considerar os objetos não apenas como símbolos passivos ou representações de ideias humanas, mas como entidades ativas, com agência própria e capazes de influenciar relações e realidades.
(A) Incorreta: A antropologia das representações foca nos objetos como símbolos ou veículos de significados culturais. O texto, no entanto, descreve uma perspectiva que supera essa visão, afirmando que os objetos "não são meras representações de protótipos: são eles próprios", embora reconheça a validade da análise representacional. A armadilha aqui é que o texto menciona a análise de representações, mas para contrastar com a nova abordagem que ele descreve.
(B) Incorreta: A antropologia visual estuda as imagens, a visão e a cultura visual. Embora o texto fale de "arte e cultura material", o foco principal da descrição é a natureza ontológica dos objetos (sujeitos, com agência, presentificações de relações), e não primariamente como eles são vistos ou como funcionam visualmente.
(C) Correta: A descrição de Sergio Baptista se encaixa perfeitamente na virada material. Ele enfatiza que os objetos são vistos "desde as lógicas nativas" como "presentificações de relações estabelecidas com alteridades extra-humanas", possuindo "atributos humanos, ponto de vista, subjetividade e intencionalidade". A frase "tais ‘objetos’ são sujeitos, possuem agência e não são meras representações de protótipos: são eles próprios" é a essência da virada material, que reavalia o papel ativo e a autonomia dos objetos no mundo social.
(D) Incorreta: A antropologia das infraestruturas se dedica ao estudo de sistemas e redes que sustentam a vida social (como estradas, redes de comunicação, saneamento). O texto aborda objetos específicos, arte e suas relações com o cosmos e entidades extra-humanas, não infraestruturas em larga escala.
(E) Incorreta: A antropologia das mercadorias analisa os objetos em seu ciclo de produção, circulação, troca e consumo dentro de sistemas econômicos. O trecho de Baptista foca na agência, subjetividade e nas relações ontológicas dos objetos, e não em seu valor de troca ou status como mercadoria.
Fonte: FGV TJ-MS 2024 Técnico de Nível Superior - Antropólogo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.