Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 (nº 6)
Literatura e justiça
Clarice LispectorHoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.
“Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo ‘literário’ (isto é, transformado na veemência da arte) da ‘coisa social’.” Nesse período do texto, a oração reduzida “eu não saber” pode ser adequadamente substituída pela seguinte oração desenvolvida:
- Aque eu não sabia;
- Bque eu não tivesse sabido;
- Cque eu não soubesse;
- Dque eu não soube;
- Eque eu não saiba. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Para transformar uma oração reduzida (que não tem conjunção e usa o verbo no infinitivo, gerúndio ou particípio) em uma oração desenvolvida (que tem conjunção e o verbo conjugado), é preciso adicionar a conjunção adequada e conjugar o verbo no tempo e modo que mantenham o sentido original da frase.
- A) Incorreta: A forma "sabia" está no pretérito imperfeito do indicativo, indicando uma ação ou estado contínuo no passado. O verbo principal da frase ("é") está no presente, e a oração reduzida "eu não saber" expressa uma condição presente ou atemporal que é tolerada, não um estado passado.
- B) Incorreta: "Tivesse sabido" está no pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo, que indica uma ação passada anterior a outra ação passada. Isso não se encaixa no contexto de uma tolerância presente sobre um "não saber" atual.
- C) Incorreta: "Soubesse" está no pretérito imperfeito do subjuntivo, que geralmente é usado quando o verbo da oração principal está no passado ou em situações de desejo/condição. Não é o caso aqui, já que o verbo principal ("é") está no presente.
- D) Incorreta: "Soube" está no pretérito perfeito do indicativo, indicando uma ação pontual e concluída no passado. A oração reduzida "eu não saber" expressa uma condição ou estado, não uma ação pontual passada.
- (E) Correta: A forma "saiba" está no presente do subjuntivo. O verbo principal "é" (presente do indicativo) expressa uma situação atual. O presente do subjuntivo é o modo adequado para expressar uma condição, uma possibilidade, um desejo ou, como neste caso, a aceitação ou tolerância de um estado presente ("não saber"). "Perdoar que eu não saiba" significa "perdoar o fato de que eu não sei" ou "aceitar que eu não sei", mantendo o sentido de uma condição atual que é objeto da tolerância da autora.
Fonte: FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.