Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 (nº 5)
Literatura e justiça
Clarice LispectorHoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.
“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também.” Essa primeira frase do texto poderia ser reescrita de forma mais adequada do seguinte modo:
- AHoje, de repente, como num verdadeiro achado, de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também; (alternativa correta)
- BHoje, de repente, como num achado verdadeiro, minha tolerância para com os outros também sobrou um pouco para mim;
- CDe repente, hoje, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
- DComo num verdadeiro achado, hoje, de repente, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
- EHoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros para mim sobrou um pouco também.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A regência verbal é a relação entre um verbo e seus complementos ou adjuntos. O verbo "sobrar", quando indica que uma parte de algo restou ou foi destinada, frequentemente se constrói com a preposição "de" para introduzir o todo do qual essa parte provém.
(A) Correta: A adição da preposição "de" antes de "minha tolerância" transforma a estrutura da frase. Na versão original, "minha tolerância" funciona como sujeito. Na alternativa A, "um pouco" torna-se o sujeito, e "de minha tolerância" indica a origem ou o todo do qual esse "pouco" sobrou. Esta construção ("sobrar de algo") é mais idiomática e comum em português para expressar que uma parte de um todo foi destinada ou restou, tornando a frase mais adequada.
(B) Incorreta: Altera a ordem dos adjetivos ("achado verdadeiro" em vez de "verdadeiro achado"), o que é uma mudança menor, e a posição do advérbio "também", mas não corrige a regência verbal considerada mais adequada para o verbo "sobrar" no contexto.
(C) Incorreta: Apenas altera a ordem dos advérbios de tempo ("De repente, hoje" em vez de "Hoje, de repente"), o que é uma mudança estilística e não afeta a regência verbal que a questão busca otimizar.
(D) Incorreta: Altera a ordem dos adjuntos adverbiais ("Como num verdadeiro achado, hoje, de repente"), o que é uma mudança estilística e não aborda a questão da regência verbal do "sobrar".
(E) Incorreta: Altera a posição do complemento "para mim" de forma que a frase soa menos natural e mais truncada ("para mim sobrou um pouco também"), além de não corrigir a regência verbal do "sobrar" para a forma mais idiomática.
Fonte: FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.