Questão nº 3

Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 (nº 3)

FGV2022Juiz LeigoLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Literatura e justiça
Clarice Lispector

Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.


“Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria ‘fazer’ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer.” Nesse segmento do texto, o termo “fazer” aparece entre aspas para indicar que:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

Quando uma palavra aparece entre aspas, o autor geralmente quer destacar um sentido específico, não literal, ou uma nuance particular que ele atribui a essa palavra, diferenciando-a do seu uso comum.

(A) Incorreta: Embora as aspas possam indicar ironia, neste contexto, a autora não está usando "fazer" de forma irônica. Ela está especificando o tipo de "fazer" que ela desejava, que era diferente do ato de escrever.
(B) Incorreta: A frase "como se escrever não fosse fazer" mostra que a autora reconhece que escrever é um tipo de fazer. A questão não é oposição, mas a distinção entre o "fazer" concreto que ela desejava e o "fazer" que é escrever.
(C) Incorreta: O "modo simplório" refere-se à abordagem da autora em relação ao fato social, e não ao ato de "fazer" em si. Ela desejava um tipo de "fazer" (concreto) por ter uma visão simplória de como agir.
(D) Incorreta: O texto não critica a literatura; a autora expressa sua dificuldade pessoal em usar a escrita para a ação social que ela idealiza, mas não desvaloriza a literatura como um todo. Ela até diz que não se envergonha do que escreve.
(E) Correta: As aspas indicam que a autora se refere a um tipo de "fazer" mais direto e tangível, uma ação concreta no mundo, em contraste com o "fazer" mais abstrato da escrita. Ela queria "fazer" algo que se manifestasse de forma palpável, como ajudar diretamente nos mocambos, e não apenas através das palavras.

Fonte: FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

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