Questão nº 1

Questão de Língua Portuguesa · FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 (nº 1)

FGV2022Juiz LeigoLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Literatura e justiça
Clarice Lispector

Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.


O texto que serve de base para as questões desta prova mostra um desabafo pessoal da autora; o segmento abaixo que se insere no mundo objetivo e NÃO no subjetivo, é:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

O mundo objetivo refere-se a fatos, eventos e realidades que existem independentemente da percepção ou sentimento individual. O mundo subjetivo diz respeito a opiniões, emoções, sentimentos e interpretações pessoais.

  • (A) Incorreta: Expressa um sentimento pessoal da autora ("minha tolerância", "não estou me envergonhando"), sendo, portanto, subjetiva.
  • (B) Incorreta: Reflete uma limitação ou incapacidade pessoal da autora ("não se trata de querer, é questão de não poder"), o que é uma percepção interna e subjetiva. A armadilha aqui é que parece uma constatação, mas é uma constatação sobre a sua própria vontade e capacidade.
  • (C) Incorreta: Descreve um sentimento de vergonha da autora ("me envergonho"), caracterizando-se como uma expressão subjetiva.
  • (D) Correta: Apresenta uma afirmação de caráter geral sobre a relação entre "luta pela justiça" e "política", que pode ser observada e discutida como um fato social ou uma tese, independentemente dos sentimentos da autora.
  • (E) Incorreta: Projeta um sentimento futuro da autora ("me envergonharei"), sendo uma manifestação puramente subjetiva.

Fonte: FGV PSS TJGO Juiz Leigo 2022 Juiz Leigo (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

Continue estudando

Estudar é izi

Pratique milhares de questões como esta, de graça, com explicação e gamificação no Quizinho.

Estudar de graça no Quizinho