Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FGV MPMS 2012 (nº 8)
A Nova Praga
Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado da Língua Portuguesa – para saber que o étimo de nosso substantivo areia é o latim "arena". E, se qualquer pessoa sabe disso até por um instinto primário, é curioso, para usar um termo educado, como nossos locutores e comentaristas de futebol, debruçados sobre um gramado verde‐verdinho, chamam‐no de "arena", numa impropriedade gritante.
Nero dava boas gargalhadas, num comportamento que já trazia latente a sua loucura final, quando via os cristãos lutando contra os leões na arena. Nesse caso, se havia rictus de loucura na face do imperador, pelo menos o termo era totalmente apropriado: o chão da luta dramática entre homem e fera era de areia. Está aí para prová‐lo até hoje o Coliseu.
(....) Mas – ora bolas! –, se o chão é de relva verdejante, é rigorosamente impróprio chamar de “arena” nossos campos de futebol, como fazem hoje. O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar como uma peste, e nem será exagero dizer que, neste caso, o equívoco vem sendo tão contagioso como a peste negra que, em números redondos, matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Índia no século XIV. E os nossos pobres ouvidos têm sido obrigados a aturar os nossos profissionais que transmitem espetáculos esportivos se referirem à arena daqui, à arena de lá, à arena não sei de onde. Assim, já são dezenas de arenas por esse Brasilzão. O velho linguista e filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909‐1985), a cujo livro mais conhecido peço emprestado o título deste pequeno artigo, deve estar se revirando no túmulo diante da violência de tal impropriedade. O bom Alves era cego, ou quase isso, mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma.
(Marcos de Castro. www.observatoriodaimprensa.com.br)
O artigo do jornalista Marcos de Castro utiliza muitas vezes a linguagem coloquial.
Assinale a alternativa em que não há exemplo desse tipo de linguagem.
- A“Mas – ora, bolas!”
- B“O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar”
- C“...se referirem à arena daqui, à arena de lá, arena não sei de onde”.
- D“Assim, já são dezenas de arenas por esse Brasilzão”.
- E“...mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma”. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Linguagem coloquial é a forma de falar e escrever informal, do dia a dia, usada em conversas casuais e que se afasta das regras gramaticais mais rígidas, podendo incluir gírias, expressões populares e construções mais soltas.
- (A) Incorreta: A expressão "ora, bolas!" é uma interjeição típica da linguagem coloquial, usada para exprimir impaciência, surpresa ou resignação de forma informal.
- (B) Incorreta: A construção "O diabo é que..." é uma expressão idiomática informal, usada para introduzir um problema ou uma situação desfavorável, característica do registro coloquial.
- (C) Incorreta: A repetição "daqui, de lá, não sei de onde" é uma forma informal e generalista de se referir a múltiplos lugares ou situações não especificadas, comum na fala cotidiana.
- (D) Incorreta: O sufixo aumentativo "-zão" em "Brasilzão" é um recurso informal para expressar grandeza ou afetividade, típico da linguagem coloquial.
- (E) Correta: A frase "...mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma" utiliza a expressão "como ninguém" para indicar excelência, que, embora seja um idiomatismo, é uma construção gramaticalmente correta e amplamente aceita em diferentes registros, não sendo um marcador exclusivo ou forte de linguagem coloquial como as outras opções. O restante da frase ("crimes cometidos contra o idioma") é formal.
Fonte: FGV MPMS 2012 Conhecimentos Comuns (Técnico I). Reproduzida para fins de estudo.