Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FGV MPMS 2012 (nº 4)
A Nova Praga
Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado da Língua Portuguesa – para saber que o étimo de nosso substantivo areia é o latim "arena". E, se qualquer pessoa sabe disso até por um instinto primário, é curioso, para usar um termo educado, como nossos locutores e comentaristas de futebol, debruçados sobre um gramado verde‐verdinho, chamam‐no de "arena", numa impropriedade gritante.
Nero dava boas gargalhadas, num comportamento que já trazia latente a sua loucura final, quando via os cristãos lutando contra os leões na arena. Nesse caso, se havia rictus de loucura na face do imperador, pelo menos o termo era totalmente apropriado: o chão da luta dramática entre homem e fera era de areia. Está aí para prová‐lo até hoje o Coliseu.
(....) Mas – ora bolas! –, se o chão é de relva verdejante, é rigorosamente impróprio chamar de “arena” nossos campos de futebol, como fazem hoje. O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar como uma peste, e nem será exagero dizer que, neste caso, o equívoco vem sendo tão contagioso como a peste negra que, em números redondos, matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Índia no século XIV. E os nossos pobres ouvidos têm sido obrigados a aturar os nossos profissionais que transmitem espetáculos esportivos se referirem à arena daqui, à arena de lá, à arena não sei de onde. Assim, já são dezenas de arenas por esse Brasilzão. O velho linguista e filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909‐1985), a cujo livro mais conhecido peço emprestado o título deste pequeno artigo, deve estar se revirando no túmulo diante da violência de tal impropriedade. O bom Alves era cego, ou quase isso, mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma.
(Marcos de Castro. www.observatoriodaimprensa.com.br)
"Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado da Língua Portuguesa – para saber que o étimo de nosso substantivo areia é o latim ‘arena’".
O comentário correto sobre um dos componentes desse segmento do texto é
- Ao pronome relativo "que" – sublinhado no segmento – tem por antecedente o substantivo "Latim".
- Ba forma do demonstrativo "essa" se justifica porque o autor se refere a algo que ocorre no momento presente.
- Co pronome relativo "cuja" tem por antecedente o substantivo "escolas".
- Do substantivo "desastre" indica que o fato citado ocorreu repentinamente.
- Eas aspas empregadas na palavra "arena" se justificam por se tratar de um vocábulo pertencente a um outro idioma. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Coesão referencial é a conexão entre as partes de um texto que garante que as palavras e expressões se refiram corretamente a outras, evitando repetições e mantendo a clareza. Para isso, usamos pronomes (relativos, demonstrativos) e outros recursos, como aspas, que sinalizam a função ou a origem de um termo.
- A) Incorreta: O pronome relativo "que" se refere a "tempo" ("no tempo em que", ou seja, "no tempo no qual existia"), e não a "Latim".
- B) Incorreta: O demonstrativo "essa" se refere à "disciplina" (Latim), que "existia" no passado, e não a algo que ocorre no momento presente. A armadilha é associar "essa" sempre ao presente, quando aqui ele retoma algo já mencionado no passado.
- C) Incorreta: O pronome relativo "cuja" tem como antecedente "disciplina", indicando posse ("a ausência da disciplina").
- D) Incorreta: O substantivo "desastre" significa uma consequência muito negativa ou calamidade, mas não indica necessariamente que o fato ocorreu de forma repentina.
- E) Correta: As aspas são usadas para destacar a palavra "arena" como um termo de outro idioma (Latim), que é o étimo (origem) da palavra portuguesa "areia", conforme o próprio texto explica. É uma convenção para indicar termos estrangeiros ou palavras que estão sendo citadas como objeto de discussão linguística.
Fonte: FGV MPMS 2012 Conhecimentos Comuns (Técnico I). Reproduzida para fins de estudo.