Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FGV MPMS 2012 (nº 6)
A Nova Praga
Não é preciso ter assistido nem à primeira aula de Latim – no tempo em que existia em nossas escolas essa disciplina, cuja ausência foi um desastre para o aprendizado da Língua Portuguesa – para saber que o étimo de nosso substantivo areia é o latim "arena". E, se qualquer pessoa sabe disso até por um instinto primário, é curioso, para usar um termo educado, como nossos locutores e comentaristas de futebol, debruçados sobre um gramado verde‐verdinho, chamam‐no de "arena", numa impropriedade gritante.
Nero dava boas gargalhadas, num comportamento que já trazia latente a sua loucura final, quando via os cristãos lutando contra os leões na arena. Nesse caso, se havia rictus de loucura na face do imperador, pelo menos o termo era totalmente apropriado: o chão da luta dramática entre homem e fera era de areia. Está aí para prová‐lo até hoje o Coliseu.
(....) Mas – ora bolas! –, se o chão é de relva verdejante, é rigorosamente impróprio chamar de “arena” nossos campos de futebol, como fazem hoje. O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar como uma peste, e nem será exagero dizer que, neste caso, o equívoco vem sendo tão contagioso como a peste negra que, em números redondos, matou 50 milhões de pessoas na Europa e na Índia no século XIV. E os nossos pobres ouvidos têm sido obrigados a aturar os nossos profissionais que transmitem espetáculos esportivos se referirem à arena daqui, à arena de lá, à arena não sei de onde. Assim, já são dezenas de arenas por esse Brasilzão. O velho linguista e filólogo mineiro Aires da Mata Machado Filho (1909‐1985), a cujo livro mais conhecido peço emprestado o título deste pequeno artigo, deve estar se revirando no túmulo diante da violência de tal impropriedade. O bom Alves era cego, ou quase isso, mas via como ninguém os crimes cometidos contra o idioma.
(Marcos de Castro. www.observatoriodaimprensa.com.br)
O segundo parágrafo do texto fala do imperador romano Nero, que acabou louco e incendiando Roma. Sua presença no texto, porém, tem a finalidade textual de
- Acriticar a loucura dos comentaristas e locutores esportivos.
- Bopor o uso de um vocábulo a um uso inadequado. (alternativa correta)
- Cmostrar que a origem do termo “arena” é muito antiga.
- Ddemonstrar que, em Roma, havia cuidado com o emprego das palavras.
- Eindicar que no Latim o vocábulo “arena” só significava “areia”.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A função argumentativa de um trecho em um texto é o papel que ele desempenha para sustentar a tese principal do autor, ou seja, como ele ajuda a convencer o leitor do ponto de vista defendido.
- (A) Incorreta: Embora o autor critique a "loucura" dos comentaristas de forma irônica no terceiro parágrafo, a menção à loucura de Nero no segundo parágrafo serve para contextualizar o uso da palavra "arena", e não para comparar diretamente sua sanidade com a dos comentaristas.
- (B) Correta: O autor utiliza o exemplo de Nero e do Coliseu para mostrar um contexto histórico em que o termo "arena" era totalmente apropriado (chão de areia), criando um contraste direto com o uso inadequado atual (chão de grama), reforçando sua crítica à impropriedade do vocábulo.
- (C) Incorreta: A antiguidade da origem do termo "arena" já é estabelecida no primeiro parágrafo, ao mencionar o latim. O segundo parágrafo vai além, usando essa origem para ilustrar um uso correto em um contexto antigo.
- (D) Incorreta: O texto não generaliza sobre o cuidado dos romanos com as palavras. Ele foca especificamente no fato de que, no contexto de Nero, o termo "arena" era apropriado porque o chão era de areia, o que é diferente de afirmar um cuidado linguístico geral.
- (E) Incorreta: O primeiro parágrafo já informa que o étimo de "areia" é o latim "arena". O segundo parágrafo não apenas reitera isso, mas usa o exemplo para demonstrar a aplicação correta desse significado em um contexto histórico.
Fonte: FGV MPMS 2012 Conhecimentos Comuns (Técnico I). Reproduzida para fins de estudo.