Questão nº 44
Questão de Psicologia · FGV DPGE-RJ 2014 (nº 44)
De acordo com pesquisas acadêmicas recentes, o TDAH, o transtorno desafiador opositivo e o transtorno de conduta lideram a lista dos transtornos mais diagnosticados por neuropediatras e psiquiatras infantis na atualidade, sendo a prevalência destes estimada em 3% a 6% da população infantil e, dependendo do critério utilizado, podendo chegar a 26% da mesma população. Uma análise crítica desse fenômeno permite concluir que
- Aas descobertas sobre os mecanismos neuroquímicos e o desenvolvimento de novos psicofármacos permitiram diagnósticos mais acurados e tratamentos mais adequados às patologias neuropsiquiátricas da população infanto-juvenil.
- Batualmente, a medicalização tem sido utilizada não apenas como a principal forma de “tratamento da criança”, mas como dispositivo de vigilância e controle que as instâncias tutelares realizam sobre a família e a criança. (alternativa correta)
- Ca escola é o locus privilegiado para o diagnóstico dos distúrbios de aprendizagem e de comportamento das crianças, suprindo a insuficiência ou deficiência da intervenção parental na percepção e manejo destes distúrbios.
- Da medicalização da criança em idade escolar decorre de um olhar científico sobre a doença em seus aspectos genéticos e bioquímicos, livre de desvios ideológicos sobre sua dimensão psíquica, histórica ou social.
- Ea epidemia de crianças e adolescentes diagnosticados com TDAH e transtornos de conduta alerta as autoridades responsáveis por programas de epidemiologia e saúde pública para as deficiências nas ações de prevenção primária.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A medicalização da infância é o processo pelo qual comportamentos, dificuldades ou características infantis que antes eram vistos como parte do desenvolvimento, problemas sociais ou traços de personalidade, passam a ser definidos e tratados como doenças ou transtornos médicos. Uma análise crítica desse fenômeno investiga as causas sociais, culturais e políticas por trás desse aumento de diagnósticos.
(A) Incorreta: Esta alternativa apresenta uma visão otimista e puramente biomédica, que não corresponde a uma "análise crítica" do fenômeno da medicalização. A crítica questiona se o aumento de diagnósticos reflete apenas avanços científicos ou também outros fatores sociais.
(B) Correta: Esta alternativa oferece uma análise crítica da medicalização, reconhecendo-a como um dispositivo de controle social. As "instâncias tutelares" (como escola, saúde, conselho tutelar) podem usar o diagnóstico e o tratamento medicamentoso para normatizar comportamentos e exercer vigilância sobre famílias e crianças que fogem do padrão esperado.
(C) Incorreta: A escola pode identificar comportamentos e encaminhar, mas o diagnóstico é feito por profissionais da saúde (neuropediatras, psiquiatras). Além disso, a ideia de "suprir a insuficiência parental" é uma simplificação que desconsidera a complexidade do fenômeno da medicalização e pode ser vista como uma forma de culpabilização.
(D) Incorreta: A medicalização, por definição, é um processo que reduz dimensões psíquicas, históricas e sociais a aspectos biológicos. A afirmação de que é "livre de desvios ideológicos" contradiz a própria natureza de uma análise crítica, que busca justamente expor as ideologias e valores implícitos na abordagem puramente biomédica.
(E) Incorreta: Embora o aumento de diagnósticos possa gerar preocupação com a saúde pública, esta alternativa foca apenas na prevenção primária dos "transtornos" como se fossem entidades puramente biológicas. Uma análise crítica da medicalização questionaria se o que se vê é uma "epidemia de transtornos" ou uma "epidemia de diagnósticos", e quais fatores sociais e sistêmicos contribuem para isso, indo além da prevenção de doenças.
Fonte: FGV DPGE-RJ 2014 Técnico Superior Especializado em Psicologia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.