Questão nº 55
Questão de Arquitetura · FCC TRT7 2024 (nº 55)
Numa verdadeira "chamada à ordem", em Rappel à l'ordre: argumentos em favor da tectônica" (1990), Kenneth Frampton argumenta que construir é, em primeiro lugar, um ato tectônico, e não uma atividade cenográfica. O edifício é ontológico, uma presença ou uma coisa, e se distingue de um signo.
Em relação à abordagem de Frampton, considere:
I. A essência da arquitetura está na manifestação poética da estrutura, como sugere a poiesis [criação] grega (e heideggeriana): um ato de fazer e revelar, que é a tectônica.
II. A necessidade da arquitetura está em sua inutilidade. Esse questionamento da importância da função constitui uma transgressão das regras da arquitetura, como, por exemplo, o princípio da comodidade da tríade vitruviana.
III. A junção é o nexo em torno do qual o edifício começa a existir e se articular como presença. A junção pode ter funções ideológicas ou referenciais no sentido de que as diferenças culturais se manifestam nas transições articuladas e nas junções que compõem uma sintaxe arquitetônica.
IV. As formas em si não têm significado, mas podem comunicar um sentido por meio de imagens enriquecidas por associações. A experiência espacial da arquitetura é sintética, opera em vários níveis simultaneamente: mental/físico, cultural/biológico, coletivo/individual.
Está correto o que se afirma em
- AII e III, apenas.
- BI e III, apenas. (alternativa correta)
- CI, II, III e IV.
- DI, II, e IV, apenas.
- EII e IV, apenas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Kenneth Frampton, em sua teoria da tectônica, defende que a arquitetura é fundamentalmente o ato de construir, de revelar a estrutura e a materialidade, em contraste com a ideia de que é apenas uma superfície ou imagem (cenografia). Para ele, o edifício é uma presença real, uma "coisa" que existe por si, e não meramente um signo.
- I. Correta: A poiesis (criação) grega, revisitada por Heidegger, é central para Frampton. Ele vê a arquitetura como um ato de "trazer à presença" a estrutura e a materialidade através do fazer, revelando a essência do edifício. Isso é a manifestação poética da estrutura, que ele chama de tectônica.
- II. Incorreta: Esta afirmação distorce a visão de Frampton. Embora ele critique a superficialidade do funcionalismo e a redução da arquitetura à mera função utilitária, ele não defende a "inutilidade" da arquitetura. Pelo contrário, sua "chamada à ordem" busca um retorno aos princípios fundamentais da construção, que incluem a firmitas (solidez) e a utilitas (comodidade) da tríade vitruviana, mas de forma mais profunda e expressiva. A armadilha aqui é confundir a crítica à redução da arquitetura à função com a negação total da função. Frampton busca uma arquitetura que transcenda a mera utilidade, mas não que seja inútil.
- III. Correta: A junção é um conceito chave na teoria tectônica de Frampton. É no detalhe da junção que a materialidade, a técnica construtiva e a intenção do arquiteto se manifestam. As junções articulam as partes do edifício, revelando como ele foi feito e como se sustenta, tornando-o uma presença. Elas também carregam significados culturais e ideológicos, expressando diferentes abordagens construtivas e estéticas em diversas culturas.
- IV. Incorreta: Embora Frampton critique a arquitetura como mera imagem ou signo desvinculado da construção, ele não afirma que "as formas em si não têm significado". Sua ênfase é que o significado mais profundo e autêntico da arquitetura surge da sua tectônica, do ato de construir e da revelação da estrutura. A experiência espacial é, de fato, complexa e multifacetada, mas a primeira parte da afirmação não se alinha precisamente com a prioridade de Frampton na origem do significado arquitetônico.
Fonte: FCC TRT7 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Arquitetura (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.