Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT6 2018 (nº 7)
Atenção: Leia com atenção o texto seguinte para responder às questões de números 7 a 12. Trata-se de uma apresentação que faz o escritor José Castello a um livro que escreveu em homenagem ao cronista Rubem Braga.
Uma entrevista sincera
Quando morreu Rubem Braga, nosso maior cronista, a parte mais importante de sua vida sobreviveu guardada nas mais de 15 mil crônicas que ele escreveu em 62 anos de atividade jornalística. Tomei então uma decisão: resolvi usar as crônicas como se fossem uma longa e sincera entrevista que Braga tivesse me concedido antes de morrer.
A maior parte dos relatos deste livro não tem a pretensão de ser uma reconstituição fiel dos fatos, mas apenas sua evocação. A maioria absoluta das descrições e dos diálogos deve ser lida, apenas, como uma recriação. A crônica foi, para ele, um gênero eminentemente confessional, e os fatos, nada mais do que os fatos, sua matéria-prima. Mas, ao ler seus escritos, logo se percebe que essas toneladas de acontecimentos estão cimentadas pela força do lirismo e de vasta imaginação, ou simplesmente desmoronariam. Em outras palavras: sem a capacidade de sonhar, os fatos não subsistem e se tornam pó. Só a mentira bem dita é capaz de moldar a verdade perdida.
Este livro não pretende ser uma biografia clássica de Rubem Braga, mas apenas um retrato minimalista de um dos maiores escritores que o Brasil já teve, que nos ensinou que vidas não são feitas apenas de fatos, mas sobretudo do modo como os torneamos. Não basta viver, é preciso dar sentido ao viver, ou tudo se evapora.
(CASTELLO, José. Na cobertura de Rubem Braga. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996, p.9-10)
Nesse texto de apresentação de seu livro, José Castello caracteriza o cronista Rubem Braga como um escritor para quem
Este texto de apoio vale também pra questão nº 8, questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12.
- Aa fidedignidade aos fatos vividos deve ser a preocupação maior de quem escreve sobre as próprias experiências.
- Ba capacidade de sonhar deve restringir-se ao mundo da imaginação, sem contato com as vivências da realidade.
- Cos acontecimentos ganham sentido e interesse na medida em que sejam trabalhados pela força da imaginação. (alternativa correta)
- Dos fatos dignos de representação literária são aqueles que marcam nossa vida por sua excepcionalidade.
- Eas crônicas devem burilar a imaginação de modo a fazer o leitor se dar conta de que tudo é mero produto da fantasia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave é que, para Rubem Braga (segundo José Castello), os fatos da vida são a matéria-prima da escrita, mas eles só ganham sentido e permanência quando são transformados e enriquecidos pela imaginação e pelo lirismo. Não basta apenas relatar o que aconteceu; é preciso "sonhar" e "tornear" os fatos para que eles não se percam e tenham significado.
- (A) Incorreta: O texto afirma explicitamente que os relatos não têm "pretensão de ser uma reconstituição fiel dos fatos, mas apenas sua evocação" e que devem ser lidos como "recriação", contradizendo a ideia de fidedignidade como preocupação maior.
- (B) Incorreta: O texto diz que os fatos são a "matéria-prima" e que a imaginação os "cimenta", mostrando que a capacidade de sonhar trabalha com a realidade, transformando-a, e não se restringe a um mundo separado dela.
- (C) Correta: Esta alternativa resume perfeitamente a ideia central do segundo e terceiro parágrafos: "sem a capacidade de sonhar, os fatos não subsistem e se tornam pó" e "vidas não são feitas apenas de fatos, mas sobretudo do modo como os torneamos. Não basta viver, é preciso dar sentido ao viver". A imaginação é o que dá sentido e interesse aos acontecimentos.
- (D) Incorreta: O texto não faz distinção sobre a "excepcionalidade" dos fatos. Pelo contrário, fala em "toneladas de acontecimentos" que precisam ser trabalhados, sugerindo que qualquer fato pode ganhar sentido pela imaginação.
- (E) Incorreta: A "mentira bem dita" serve para "moldar a verdade perdida" e "dar sentido ao viver", não para fazer o leitor acreditar que tudo é "mero produto da fantasia" e que a realidade não importa. A imaginação serve para revelar uma verdade mais profunda nos fatos, não para negá-los.
Fonte: FCC TRT6 2018 Conhecimentos Comuns (Judiciária TRT6 2018) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.